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Negro Cosme e a educação
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Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros

Negro Cosme e a educação

Penso que o Ceará, como terra natal desse grande líder quilombola brasileiro, deveria se juntar aos esforços do Maranhão na valorização da memória de Negro Cosme.
Tipo Crônica
O escritor Flávio Paiva e os estudantes da Unilab   (Foto: Yuri Chimanga/DIVULGAÇÃO)
Foto: Yuri Chimanga/DIVULGAÇÃO O escritor Flávio Paiva e os estudantes da Unilab

Foi em um carnaval na Ilha de São Luís do Maranhão que tomei conhecimento da figura de Cosme Bento das Chagas, o Negro Cosme (1801-1942). Era o ano de 1989 e, como participante naquele ano do desfile da escola Turma do Quinto, entoei na multidão o tema do levante popular e liberal conhecido como Balaiada, semi vestido em fantasia com grafismo em preto e branco, cinta e colar também alvinegros, com bolas vermelhas, e um chapéu branco de penas rubras. O enredo dava coesão ao significado político da palavra negro, unindo pretos e pardos: "Aê, sou quilombola / Aê, sou quilombá / Aê, sou Negro Cosme...".

Aquele som e aquele nome ficaram ecoando em minhas lembranças. Três décadas depois, na semana anterior ao Carnaval de 2020, estive novamente no Maranhão em pesquisa de campo para a produção do meu livro "Toque de Avançar. Destino: Independência", ficção histórica que chamei de biografia do nome da cidade onde nasci. Na região dos cocais, na antiga Cachias das Aldeias Altas, atual cidade de Caxias, voltei a ouvir falar de Negro Cosme, principalmente pela liderança que ele exerceu na Balaiada (1838 - 1841).

Condenado por lutar pela liberdade do povo negro e por igualdade social, Cosme Bento foi enforcado em praça pública na vila de Itapecuru-Mirim, em 1842. Nascido nas cercanias sobralenses do rio Acaraú, interior do Ceará, mudou-se para os territórios do Maranhão banhados pelas águas do rio Itapecuru. Ali, criou e liderou o quilombo de Lagoa Amarela, com cerca de três mil integrantes, o maior da história daquele Estado, que, à época, com exceção da população de povos originários, tinha duas pessoas escravizadas para cada uma não-escravizada. Dois séculos depois da ancestralização de Negro Cosme, existem cerca de 70 comunidades quilombolas nas plagas maranhenses.

A visionária consciência política de Negro Cosme fez com que ele acreditasse na educação como estratégia de emancipação. Foi o primeiro líder negro brasileiro a organizar uma escola de ensino de leitura e de escrita em um quilombo. Isso é um marco muito significativo na história da luta antirracista e pela igualdade racial. A oportunidade de acesso à educação de pessoas pretas e pobres segue como um dos grandes desafios brasileiros, embora muitos avanços tenham sido conquistados. Cosme Bento, que sabia ler e escrever, naturalmente percebia a diferença que a educação tinha feito para a expansão do entendimento que tinha do mundo em que estava inserido.

O Maranhão tem uma lei (nº 10.524/2016) que institui o dia 17 de setembro, data do assassinato de Cosme Bento das Chagas, como Dia do Negro Cosme; na capital São Luís há uma praça com seu nome, no bairro Fé em Deus; e no município de Imperatriz foi criado o Centro de Cultura Negro Cosme, que atua na busca de igualdade racial. No campo da educação, o governo maranhense mantém a Plataforma Negro Cosme, por meio da qual atende a demandas de cursos fundamentais para a democratização do conhecimento, a capacitação digital e o fortalecimento da educação profissional e tecnológica.

Penso que o Ceará, como terra natal desse grande líder quilombola brasileiro, deveria se juntar aos esforços do Maranhão na valorização da memória de Negro Cosme. Dediquei a ele o meu novo livro "Ceará Negro e outros temas de África", como manifestação desse desejo de que a "Terra da Luz" se torne um lugar sem discriminação, mais igualitário e mais justo.

 

Foto do Flávio Paiva

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