Henrique Araújo é jornalista e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado em Sociologia (UFC) e em Literatura Comparada (UFC). Cronista do O POVO, escreve às quartas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades, editor-adjunto de Política e repórter especial. Mantém uma coluna sobre bastidores da política publicada às segundas, quintas e sextas-feiras.
O empenho demonstrado pelo ministro Camilo Santana (Educação) na campanha de Waldemir Catanho (PT) à Prefeitura de Caucaia não é gratuito, tampouco se deve unicamente ao fato de o candidato ter passado pela gestão do governador Elmano de Freitas. Trata-se de um gesto com destinatária certa: a deputada federal Luizianne Lins
Foto: Guilherme Gonsalves /O POVO
A deputada federal e ex-prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins
O empenho demonstrado pelo ministro Camilo Santana (Educação) na campanha de Waldemir Catanho (PT) à Prefeitura de Caucaia não é gratuito, tampouco se deve unicamente ao fato de o candidato ter passado pela gestão do governador Elmano de Freitas. Trata-se de um gesto com destinatária certa: a deputada federal Luizianne Lins, de quem o ex-governador espera alguma reciprocidade, ou seja, participação e/ou engajamento ao lado de Evandro Leitão na disputa em Fortaleza. No entorno do presidente da Assembleia, sabe-se que a peleja contra José Sarto (PDT), Capitão Wagner (União) e André Fernandes (PL) pode se dar de forma mais ou menos acidentada, a depender da capacidade de mobilização do representante petista entre alas do partido não alinhadas ao "camilismo". Daí a leitura de que a presença do ministro no palanque de Catanho seja a de que Camilo sinaliza mais para LL do que para o postulante, que nunca foi um entusiasta do ex-chefe do Abolição - "veja se encontra alguma postagem de Catanho com apoio a Camilo", disse um petista que transita bem pelos muitos corredores do PT.
PT escolhe Fernandes como rival
Embora pareça trivial, a declaração de Elmano, para quem o crescimento de Evandro e Fernandes espelha uma polarização nacional, indica que o PT já escolheu um candidato contra o qual se bater num possível 2º turno. Bolsonarista com selo autenticado, o deputado federal do PL reúne os predicados que fariam dele um adversário talhado para a exploração da rejeição ao ex-presidente. Nesse sentido, a menção do governador a Fernandes não é casual, mas parte da estratégia segundo a qual o pleito de 2024 é desdobramento do de 2022. No âmbito local, porque reflete a cisão de PDT e PT. E no nacional, porque é marcado pelo enfrentamento entre campos antagônicos que concorrem pelo poder nas grandes cidades. O protagonismo de Fernandes, dessa maneira, ajudaria PT e PL a desossarem os demais competidores, reduzindo a disputa aos polos do lulismo e do bolsonarismo.
Desvendando Pablo Marçal
Candidato em São Paulo pelo PRTB, Pablo Marçal extrai proveito da plataformização da arena pública, cujas regras se tornaram mais elásticas, de modo a tolerar a performance antiestrutural de um empresário alvo de investigações que requenta estratégias já empregadas por Bolsonaro em 2018. É um filme já visto. Marçal difere apenas numa ênfase maior nessa virilidade histérica (versão 3.0 do "imbrochável" com retrogosto de "trolagem"), mas não no teor ou na forma. Seu modus operandi é o da doutrina do choque, rebaixando o discurso e desinstitucionalizando espaços de escrutínio, a exemplo dos debates. Como faz isso? Transpondo a anomia das redes, onde tem capital de influência, para o mundo real, que deveria operar sob outro regime.
Desmontando a máquina de cortes
Com Marçal em cena, porém, esse tempo presente se contamina, encurtado e recortado de seu contexto para produzir rendimentos de atenção, que ele depois explora, como bom embusteiro, impulsionando com recursos próprios e convertendo-os em ativo de campanha. Enfrentá-lo não é tarefa fácil, principalmente porque passa necessariamente pela desarticulação dos seus enunciados (feitos para viralizar) e pela desmontagem da sua imagem (desqualificada mais que disruptiva), mas também pela sua desmonetização ao vivo, recusando a encenação que ele propõe como jogo. Fora isso, claro, cumpre à Justiça frear a enxurrada de cortes que lembram os disparos em massa de Bolsonaro seis anos atrás - expediente sem o qual ele talvez não tivesse vencido.
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