Henrique Araújo é jornalista e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado em Sociologia (UFC) e em Literatura Comparada (UFC). Cronista do O POVO, escreve às quartas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades, editor-adjunto de Política e repórter especial. Mantém uma coluna sobre bastidores da política publicada às segundas, quintas e sextas-feiras.
O Brasil do (narco) candidato se encontrou com a gestão do fogo como política de exaustão, com focos desse múltiplo incêndio irradiando-se desde São Paulo e Goiás, estados cuja produção agroindustrial tem se refletido cada vez mais numa cultura audiovisual que samplifica elementos de uma ruralidade à moda "casa grande" e os de uma urbanidade com ares de cosmopolitismo "tarcisicamente" brucutu.
O resultado desse "terramoto", como dizem os lusitanos, é uma nuvem espessa que recobre os céus do país, distopicamente avermelhado, num coágulo de detritos que se transportam de região para região. Algo como uma criatura alienígena cuja extensão assombrasse o continente em uma nova invasão a la Welles, transmitida ao vivo não pelo rádio, mas pela internet, sem redundar em pânico como naquele mundo do entre-guerras.
Há até quem veja beleza nesse lusco-fusco fuliginoso "bladerunneano", o ocaso ferrífero tarjado de laranja que leva centenas aos pronto-socorros com falta de ar, em face de toda essa madeira ardendo enquanto a vida segue em ritmo de normalidade pós-pandêmica.
Depois da Covid, voltamos a ficar com as vias respiratórias bloqueadas, agora por ação deliberada do maior agente patológico do planeta.
As queimadas equivalem a um recurso mobilizado por essa guerrilha de uma criminalidade de baixa patente, arregimentada por pequenos fazendeiros cujos interesses podem até se confrontar ocasionalmente com os do agro, mas quase sempre convergem (ao menos na agenda política), ainda que o resultado geral pareça se constituir como de prejuízo para a cadeia produtiva.
O ganho econômico é o mesmo que se obtém da terra arrasada, ou seja, a sensação de anomia e de que os governos (estadual e federal) fracassam na administração da coisa pública. Daí a combustão e as chamas que lambem as lavouras, matam os animais e expulsam as famílias de suas casas. Signo de barbaridade, faz demonstrar que haveria desmazelo e inépcia para conduzir o regime de bem-estar.
Esse é o capitalismo incendiário, que esgota e pilha para depois vender racionalidade ao custo de propostas mirabolantes, a exemplo de Pablo Marçal e seus teleféricos. Como solução, propõe converter cada cidadão em um CEO de si mesmo, trocando ideias de solidariedade por uma lógica privatista, dissolvendo nexos de civilidade para além daqueles mediados pelo dinheiro, apostando todas as suas fichas nesse híbrido de teologia da prosperidade com filosofia do trambique.
Também o ex-coach pretende "incendiar" o cenário, despejando monóxido de carbono nos canais institucionais, atirando bombas no palco como truques de prestidigitação diante dos quais simula ter algum domínio sobre o que fala, enquanto se grava em cortes para as plataformas, exatamente como os cuspidores de fogo durante o seu ato ígneo.
PM quer fazer crer que o voluntarismo empreendedor pode substituir qualquer noção de coletividade, algo como supor que o trator ateando labaredas pelos campos de cana e milho seria resposta aos problemas da nação, sejam quais forem.
Em ambos os casos, tem-se uma cortina de fumaça para as disputas reais em torno das quais se jogam os dados do futuro, no curtíssimo prazo e no longo.
Política como cenário. Políticos como personagens. Jornalismo como palco. Na minha coluna tudo isso está em movimento. Acesse minha página
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