Henrique Araújo é jornalista e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado em Sociologia (UFC) e em Literatura Comparada (UFC). Cronista do O POVO, escreve às quartas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades, editor-adjunto de Política e repórter especial. Mantém uma coluna sobre bastidores da política publicada às segundas, quintas e sextas-feiras.
A ideia de uma trama urbana é não apenas metáfora, mas imagem consolidada de uma cidade esfiapada do alto, como se as bordas lhe sobrassem, rasgadas por mãos que operam o trabalho de descostura de madrugada.
Eu mesmo flagrei outra noite, testemunha da arte e do artista entretecendo-se mutuamente: o homem aboletando-se na fiação, acocorado com destreza circense, habilmente desfazendo o que as empresas de internet e telefonia haviam tecido mais cedo, num jogo de gato e rato - os prestadores de serviço de prontidão para o engenho da gatunagem, contra o qual não se há o que fazer.
Ainda quis chamar o policial, mas refleti um instante sobre a bobajada que seria eu, já sonolento, a telefonar à uma da manhã de uma quinta de fevereiro para denunciar um descuidista furtando metal encapado com uma faca de cozinha de cabo laranja, dessas que uso todos os dias para cortar o pão e passar-lhe manteiga.
Assim é o mapa de Fortaleza hoje, cindido entre o emaranhado e o desfeito, o engodo dos nós intercambiando-se de poste em poste, os circuitos de cobre pendendo como punhos de rede ou essas cordas que esquecemos penduradas no armador da varanda de casa.
Na Aldeota ou no Benfica, no Conjunto Ceará ou no Joaquim Távora, o fio em queda já se converteu na marca d'água do novo traçado aéreo das ruas, inscrita na moldura da metrópole como um elemento cicatricial.
Espécie de nova pichação, risca sem riscar, definindo trajetórias e redesenhando o horizonte, um fecho que se abre por golpe de arma branca.
Foi de repente que se deu a naturalização do desmazelo? Uma vez que foi acolhido o irresoluto e celebrado o faltoso como na casa do sem jeito, que é o jeito nosso de lidar com os problemas sem solução.
Afinal, não somos a terra de passarelas provisórias que se eternizam e das obras inconclusas cujo projeto de esqueleto é legado de geração a geração, como uma herança maldita, até que encontre uma finalidade qualquer, boa ou má?
E dessa mesma qualidade há muitos, do esgotamento malfeito ao aterramento do Pajeú, do ginásio público barulhento aos carros estacionados sobre os canteiros no entorno das igrejas de grã-fino em missas dominicais.
Fenômeno até curioso: levas de famílias metidas em panos sofisticados performando ao vivo aquelas cartilhas coloridas dos mórmons, tudo sob o olhar preguiçoso de agentes de trânsito, como se o mundo das regras de convívio social precisasse se dobrar, em saudação penitente, à contrição semanal desses pecadores do PIB alencarino.
Mas, sem perder o fio (o da meada e o dos postes), me pergunto se esse incômodo com o feio há de atormentar mais gente, se não se trata de uma dessas preocupações aburguesadas que adquirimos à medida que envelhecemos, se os mais moços não dariam de ombros para o esforço de desviar do pedaço estirado, se não haveria assunto mais apropriado do que esse com que se ocupar.
Não sei ao certo, mas, tal como na antropologia, um fio nunca está apartado de uma rede, da qual é parte e de onde se desloca em todas as direções, entre as quais o seu centro, de modo que o fio solto, entendido como fragmento de uma coletividade, constitui um elemento que deve querer dizer qualquer coisa de importante a uma capital quase tricentenária como Fortaleza.
Política como cenário. Políticos como personagens. Jornalismo como palco. Na minha coluna tudo isso está em movimento. Acesse minha página
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