Henrique Araújo é jornalista e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado em Sociologia (UFC) e em Literatura Comparada (UFC). Cronista do O POVO, escreve às quartas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades, editor-adjunto de Política e repórter especial. Mantém uma coluna sobre bastidores da política publicada às segundas, quintas e sextas-feiras.
Há pelo menos duas leituras possíveis do cenário que se desenha
Foto: AURÉLIO ALVES
CAMILO Santana, Lula e Elmano de Freitas
Há uma pergunta no ar: a impopularidade crescente de Lula, inclusive no Nordeste, pode se refletir na performance em busca de reeleição do governador Elmano de Freitas (PT)? Existem duas maneiras de responder a essa questão. Uma é encarando-a ao pé da letra, ou seja, avaliando os impactos locais e imediatos de uma renitente erosão de capital do presidente no projeto eleitoral do chefe estadual.
Sob esse ponto de vista, talvez Elmano possa refratar esse desgaste lulista com uma agenda própria mais dinâmica e menos dependente do Governo Federal, de modo que, na cabeça do eleitorado cearense, o petista no Abolição não se confundiria com o petista do Planalto, cujas dificuldades estariam situadas noutro plano - nacional, digamos assim, no qual as variáveis para decisão são outras.
Outra forma de leitura do cenário, porém, obriga a considerar que uma manutenção da fragilidade política de Lula produziria um rearranjo no xadrez, estimulando projetos de oposição, entre os quais os de Jair Bolsonaro (PL) e de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. Como se sabe, o gestor do Executivo paulista é filiado ao Republicanos, tendo na sua base o PSD de Kassab e o MDB de Ricardo Nunes, prefeito da capital - no Ceará, os três partidos estão na base de Elmano.
Eis a hipótese: uma candidatura competitiva de Tarcísio teria condições suficientes para testar as fidelidades no âmbito estadual.
Caminhos para a oposição
Esse é, aliás, um dos poucos cenários em que a oposição no Ceará chegaria fortalecida na disputa pelo Governo do Estado e pelas vagas no Senado, isto é, uma coalização nacional robusta que se opusesse a um Lula descarnado no Nordeste e com chances de derrotá-lo. Dispensável dizer que uma tal configuração alteraria todo o desenho do pleito que se aproxima, num reequilíbrio de jogadores. Um segundo quadro favorável aos adversários de Elmano e do ministro Camilo Santana no Estado dependeria de um implausível (mas não impossível) rompimento do senador Cid Gomes (PSB), o único com chances de ainda recompor minimamente o campo que um dia orbitou o PDT e os irmãos Ferreira Gomes, hoje desamigados. Naturalmente, não é descabido supor uma combinação dessas duas alternativas, com o enfraquecimento de Lula ensejando a consolidação de um bloco anti-PT.
Ciro no Senado?
A propósito, o ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT) não está parado. Dias atrás, participou de um encontro com a bancada do PDT, da qual ouviu apelo para que examine com zelo uma nova candidatura em 2026, em princípio à sucessão de Lula. O entendimento é de que, diferentemente de 2022, agora haveria mais espaço para um nome fora do binarismo Lula/Bolsonaro. Um dos convidados do "Debates do Povo" (rádio O POVO CBN) de ontem, contudo, o vereador Gardel Rolim (PDT) cogitou que Ciro pode concorrer não ao Planalto, mas a um mandato de senador. Seria uma estratégia, avaliou o pedetista, para injetar combustível em uma chapa de candidatos ao Congresso pela legenda trabalhista. Caso isso seja levado adiante, uma circunstância inusitada se apresentaria: Ciro e o irmão Cid pleiteando a mesma cadeira de senador.
Alta concorrência
Embora haja apenas duas vagas em aberto ano que vem, o número de governistas interessados no Senado Federal só faz aumentar a cada dia. À meia dúzia de pretendentes, juntou-se o presidente da Assembleia, Romeu Aldigueri (PSB). Os demais, autodeclarados ou não, são os deputados federais José Guimarães (PT), Júnior Mano (PSB) e Eunício Oliveira (MDB), o senador Cid Gomes (PSB) e o ex-suplente de senador Chiquinho Feitosa (Republicanos) - fora aqueles cujos apetites ainda não se revelaram, por ora.
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