Logo O POVO+
190 mililitros
Comentar
Foto de Isabel Costa
clique para exibir bio do colunista

Inquieta, porém calma. Isabel Costa, a Bel, é mediadora de leituras, jornalista e professora. Realiza ações no âmbito da leitura, desde 2016, em Fortaleza e na Região Metropolitana. É especialista em Literatura e Semiótica pela Uece. Autora dos livros Pitaya e das obras experimentais Vitamina D, Querida Anne e Retalhos. Aos domingos, quinzenalmente, é possível ler as crônicas da Bel no Vida&Arte, caderno do O POVO

190 mililitros

Já pensou que coisa maluca ser um copo descartável? Ele é usado para um ser humano tomar dois goles de café frio e, em segundos, é arremessado na lixeira.
Tipo Crônica
Comentar
Ilustração de Jansen Lucas para crônica de Isabel Costa
 (Foto: JANSEN LUCAS)
Foto: JANSEN LUCAS Ilustração de Jansen Lucas para crônica de Isabel Costa

Apenas 11,5% do poliestireno produzido no Brasil é reciclado, segundo dados divulgados pela Pesquisa Índice de Reciclagem de Plásticos. O material, conhecido como PS, é um polímero sintético bastante utilizado para a produção de embalagens e decorações. Por ser um termoplástico, a substância é facilmente moldável quando aquecida e resistente quando resfriada. Sabe quais objetos cotidianos são feitos de PS? Copos descartáveis.

Já pensou que coisa maluca ser um copo descartável? Ele é usado para um ser humano tomar dois goles de café frio e, em segundos, é arremessado na lixeira. A reciclagem é dificultosa, então, boa parte dos copos acaba na natureza - poluindo florestas, matando golfinhos e baleias, envenenando desertos. O ápice da existência do copo descartável é servir refrigerante para uma criança calorenta durante a festinha de aniversário. Depois, são até 400 anos para a decomposição acontecer por completo.

Sabe quem não sofre com esses problemas? O copo americano! É uma vida longa e próspera. Com capacidade média para 190 ml, ele é considerado ícone cult, emblema do design, case de sucesso, queridinho da decoração. Nas padarias para servir café gourmet ou nos bares para prover cerveja artesanal, o copo americano ganhou o status de peça "legitimamente brasileira". É apropriado presentear o amigo que acabou de mudar de casa com copos americanos, mas ninguém vai levar descartáveis como mimo. A fabricação pertence primordialmente à empresa paulista Nadir Figueiredo - que utilizava maquinário norte-americano, daí a designação óbvia "copo americano".

Mas a existência é solitária. Vendido isoladamente ou em conjuntos de seis unidades, o copo americano repousa nos balcões e nas pias - ano após ano - com poucos amigos para compartilhar a vida. Então, um bêbado qualquer derruba o utensílio - vertendo todo o glamour em um milhão de perigosos pedacinhos de vidro. Em compensação, os copos descartáveis nunca estão sozinhos - pois são comercializados em pacotes de cem unidades. Com várias capacidades diferentes, os descartáveis formam famílias - menores, maiores, médios, pequeninos. Na hora do descarte, também costumam estar unidos.

Qual é a pior existência de todas? A do copo de geleia de mocotó. Ele é a terceira via e une as piores características do copo descartável e do copo americano. O conteúdo doce não agrada todos os paladares, dessa forma, logo na prateleira do supermercado, ele já recebe olhares enviesados. É vendido sozinho ou em poucas unidades e, depois do conteúdo ser consumido, o copo de geleia paira na pia da cozinha com um destino indefinido. Até alguém lavar para desimpregnar o cheiro açucarado. A vida dele é ser um entulho, um entrave. Não é prático igual ao copo descartável, não é durável igual ao copo americano. Está fadado a ficar no fundo de algum armário bolorento - aguardando o momento de uma faxina quando alguém vai indagar "o que essa tralha tá fazendo aqui ainda?".

Na próxima encarnação, eu quero ser um Copo Stanley.

 

Foto do Isabel Costa

A soma da Literatura, das histórias cotidianas e a paixão pela escrita. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?