João Paulo Biage é jornalista há 13 anos e especialista em Comunicação Pública. De Brasília, acompanha, todos os dias, os passos dos parlamentares no Congresso Nacional e a movimentação no Palácio do Planalto, local de trabalho do presidente. É repórter e comentarista do programa O POVO News e colunista do O POVO Mais
Mãos trêmulas, rosto vermelho, sudorese e salivação excessivas e ameaças. Durante o pronunciamento feito após virar réu, Bolsonaro demonstrou nervosismo, mas se disse tranquilo
Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Ex-presidente da República Jair Bolsonaro concede entrevista depois de se tornar réu por tentativa de golpe no Supremo Tribunal Federal
“O ex-presidente Jair Bolsonaro acompanha o julgamento do gabinete do seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, e pretende se manifestar após a decisão”, dizia o comunicado à imprensa enviado por assessores de Jair e de Flávio. Eu estava no Anexo II do Supremo Tribunal Federal e me desloquei até o Senado. Lá, já havia um púlpito e colegas da imprensa para acompanhar o pronunciamento.
Assim que Cristiano Zanin encerrou a sessão que colocou Bolsonaro no banco dos réus, as informações começaram a se desencontrar. Jair estava no gabinete de Flávio Bolsonaro acompanhado de outros aliados, que respondiam às mais diversas mensagens. “Ele está almoçando, desce daqui a pouco”, respondeu um deputado. “Está em reunião com Flávio e os advogados e já vai”, respondeu um senador.
Depois de 40 minutos de espera, os líderes da oposição chegaram ao local combinado. “Ele está tranquilo, mais tranquilo que todos nós”, disse o deputado Coronel Zucco (PL-RS). Já Rogério Marinho (PL-RN) foi um pouco mais cauteloso. “Ficou chateado, mas todo mundo já sabia, né?!”, questionou de forma retórica.
Jair desceu 10 minutos depois. Sorrindo, puxou algumas folhas de papel e disse que estava ‘super tranquilo’. Recebeu mais papéis de Flávio de Paulo Bueno, um dos advogados dele. Leu algumas, organizou nas mãos e começou. “Vamos, lá?”. Fomos! O ex-presidente começou com um pedido de licença e avisou que iria se alongar na fala preliminar antes de abrir para perguntas. E ele se alongou, mesmo.
Bolsonaro começou falando sobre as urnas eletrônicas, questionando o sistema eleitoral brasileiro e tudo ali parecia uma reprise do que ele já tinha falado centenas de vezes. Aos poucos, Jair foi mudando: o tom de voz aumentou, o rosto ficou vermelho, a salivação aumentou e saraivadas de cuspe eram derrubadas nos microfones a cada grito.
Ao pegar os papéis, as mãos estavam trêmulas. Ele não conseguiu ler e, na pausa, a primeira pergunta. “E sobre o julgamento, presidente?”, questionou uma colega. Já bem nervoso, Bolsonaro pediu para não ser interrompido. Ele alegou que abriria para perguntas depois da fala preliminar.
O ex-presidente secava as mãos suadas no terno. Fez isso três vezes em 20 minutos. Em um desses momentos, ele alegava que se reunir com as Forças Armadas para discutir remédios constitucionais não era crime. Este colunista ousou e o perguntou. “O senhor se reuniu?”. Sim, ele havia pedido para não ser interrompido, mas a pausa e a frase foram convidativas demais para calar o jornalista que estava dentro de mim. “Você não vai me tirar do sério. A maioria aqui já me conhece. Se eu ficar irritado, eu vou embora”, ameaçou.
Aguardei até o momento dele abrir para perguntas. A espera, porém, foi em vão. Ficamos frente a frente, de novo, três horas depois. “Fala com a gente, presidente?”, pedi. “Mas de novo?”, ele perguntou, já sabendo que ficara devendo respostas.
Perguntei, novamente, sobre as reuniões. Bolsonaro respondeu, mas tentando não responder. “Conversei com os comandantes porque o TSE fechou as portas. Quando vimos que nada poderia ser feito, acabou. Eu não assinei nada”, confessou o ex-presidente, mas tentando não confessar.
Depois de 40 minutos de várias perguntas e respostas, um trompetista ousado deu as caras e arrancou de todos uma risada. Fabiano já é conhecido, é filiado ao PT e Bolsonaro sabia. Tentou disfarçar, mas ficou visivelmente incomodado. Seguiu falando por mais três minutos e encerrou a coletiva. Ele entrou no carro dizendo que teme ser preso, mas que estava tranquilo. E essa foi só mais uma das várias contradições ditas pelo ex-presidente no dia em que virou réu no STF.
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