Lucas Mota é repórter de Esportes de O POVO. Estudou jornalismo na Universidade 7 de Setembro e na Universidad de Málaga (UMA). Ganhou o Prêmio CDL de Comunicação na categoria Webjornalismo e o Prêmio Gandhi de Comunicação na categoria Jornalismo Impresso, e ficou em 2º lugar no Prêmio Nacional de Jornalismo Rui Bianchi
A bordo do ônibus, que serpenteava em direção ao sertão, busquei companhia na literatura de João Ubaldo Ribeiro. "Sargento Getúlio" serviu de ponte, um reencontro com o espírito do Interior que me aguardava
Foto: LUCAS MOTA/O POVO
Passei meus últimos dias de férias no Interior do Ceará, visitando meus pais
No derradeiro ato das férias, embarquei rumo ao Interior, destinado a Pentecoste e Itapajé, terras de minha mãeLiduina e meu pai Marcondes, respectivamente. Quatro dias de um adeus temporário antes de retornar à rotina do batente.
A bordo do ônibus, que serpenteava em direção ao sertão, busquei companhia na literatura de João Ubaldo Ribeiro. "Sargento Getúlio" serviu de ponte, um reencontro com o espírito do Interior que me aguardava. Devorei o livro em um sopro, sentindo suas palavras se entrelaçarem com a paisagem e as pessoas ao meu redor.
O sertão cearense, com sua dureza e beleza, parecia um cenário extraído das páginas de João Ubaldo. A "macheza" ali é medida pelo tamanho do calção, e a insegurança, sufocada por declarações de valentia, espelhando o protagonista Getúlio.
Em Itapajé, meu pai e eu peregrinamos pelos bares da cidade. Cada parada, uma ouro e uma preta, e muitas histórias compartilhadas. Os botecos, com balcões rústicos, banheiros mal cuidados e prateleiras abarrotadas de cachaças, mantinham um brega estridente no ar. Do lado de fora, a brasa fumegante preparava iguarias, da tripa ao carneiro.
No bar de Cleilton, a vista era a estrada. Caminhões passavam incessantemente, enquanto mais uma ouro e uma preta desciam queimando a garganta. Estávamos rodeados por gente afável, sempre disposta a uma boa prosa, um aperto de mão firme e um sorriso franco.
Em meio ao brega mais sentido, surgiu um rock pesado. AC/DC irrompeu do nada, e eu, surpreso, mandei um vídeo para meu irmão André, beatlemaníaco e roqueiro de coração. Em sua homenagem, repeti a dose da ouro e preta.
Pelo centro de Itapajé, o comércio fervia numa manhã de sábado. Foi ali que encontrei uma raridade dos anos 2000: uma blusa do Remo por meros R$ 20. Vesti e não tirei mais.
Uma parada rápida no Silveira, outro bar icônico da cidade. Às doze em ponto, Silveira fecha as portas sem exceção. “Nem o Barack Obama entraria depois do meio-dia”, dizia meu pai. E eu, que em Fortaleza detesto andar de moto por medo do trânsito, no Interior me sentia livre, disposto a ser levado para qualquer lugar.
O domingo foi especial: aniversário de meu pai. Até minha mãe, que havia visto em Pentecoste, apareceu de surpresa. Fiquei responsável pela playlist, que navegou de João Nogueira a Zeca Pagodinho, passando por Bebeto e Jorge Ben. Teve até karaokê. Sem timidez, cantei Belchior, Raul Seixas e Jorge Ben. As apresentações foram terríveis, mas a alegria era imensa.
Rodeado pelos amigos de meu pai, que se tornaram meus também — Capemba, Tio Marcos, Gilvan, Baltazar e Marquinhos — brindamos até o último minuto antes de partir de volta para a Capital. Despedimo-nos com a promessa de retorno em breve. E assim, com o coração cheio de saudade antecipada, deixei o sertão para retomar aos dias de jornalismo.
Ôpa! Tenho mais informações pra você. Acesse minha página
e clique no sino para receber notificações.
Esse conteúdo é de acesso exclusivo aos assinantes do OP+
Filmes, documentários, clube de descontos, reportagens, colunistas, jornal e muito mais
Conteúdo exclusivo para assinantes do OPOVO+. Já é assinante?
Entrar.
Estamos disponibilizando gratuitamente um conteúdo de acesso exclusivo de assinantes. Para mais colunas, vídeos e reportagens especiais como essas assine OPOVO +.