Mailson Furtado é escritor, dentre outras obras, de À Cidade (livro vencedor do Prêmio Jabuti 2018 – categorias Poesia e livro do Ano). Em Varjota-CE, fundou a CIA teatral Criando Arte, em 2006, onde realiza atividades de ator, diretor e dramaturgo, e é produtor cultural da Casa de Arte CriAr. Mailson escreve, quinzenalmente, crônicas sobre futebol e outros temas
Conduziu tantos mundos a poemas, contos, danças, cenas ou mesmo conversas de pé-de-calçada que nem mesmo a lembrança daquela rural embriagada conseguiu afastá-lo delas
Foto: Edimar Soares (em 13/9/2013)
Oswald Barroso foi ator, escritor, teatrólogo e pesquisador
Entre as tantas pernas que colecionava, corria o menino Raimundo, amarelo de inquietação, nas ruas da Fortaleza dos anos 1960. Na correria, driblava a cidade que crescia, a fazer, numa esquina, cestas pelo time de basquete do América, noutra, gols pelo time de futebol de salão do Iracema, noutra, gols pelo time de futebol juvenil do Fortaleza, noutra, pontos pelo time de voleibol do Náutico. Nas carreiras, seguia. Corria. Tinha 16. Há pouco fora convocado para a seleção cearense de voleibol. Até que.
Há um mês o Brasil se emborcava. Era instituída a ditadura civil-militar em 1º de abril de 1964, sem se saber o que se daria dali por diante. Mal sabia o menino que aquilo seria o motivo pra tantas outras pernas. Mas até ali seguia a correr, a fazer cestas, pontos e gols, até que na manhã de 1º de maio, de frente ao Clube dos Diários, embriagada, uma camionete rural invade a calçada da Monsenhor Tabosa, e encontra as zilhões de pernas de Raimundo, que, pela primeira vez, talvez tenha ficado quieto.
Acamado por um ano em um difícil tratamento no Rio de Janeiro, seguiu a vasculhar o mundo e ali, sem pernas, embrenhou-se em ser feliz noutras quatro linhas, os livros.
Nunca correu tanto. Viajou mundos e seguiu em traquinagens através da poesia, não aceitando a prisão que lhe era imposta. Sem exceção, nenhuma prisão. De volta a Fortaleza, retornou a correr, agora contra quem cerceava liberdades, por longos anos o sempre menino Raimundo foi perseguido e quatro vezes preso pelo regime, que não o venceu. Ali tomaram suas pernas, que só impulsionaram a outras tantas viagens por tantos mundos da arte.
Vinda a esperança e a liberdade, nômade, foi brincar por sertões, praias e serras de todo o Ceará com caretas, bois, burrinhas, jaraguás, e dançar cocos e maracatus, prometendo a si mesmo que só sairia daqueles lugares se os pudesse levar junto. Cumprindo a promessa, trouxe-os em um balaio só a outras quatro linhas, dessa vez para os palcos do teatro.
E assim, com a mesma energia da busca da bola rumo a um gol, a um ponto, a uma cesta, que aprendeu e fez até os 16, seguiu o menino Raimundo, até os 76, em busca de histórias que pudessem eleger um grito, um entalo ou qualquer emoção para cristalizar o presente, dentro de quatro ou mais linhas. Conduziu tantos mundos a poemas, contos, danças, cenas ou mesmo conversas de pé-de-calçada que nem mesmo a lembrança daquela rural embriagada conseguiu afastá-lo delas.
No último dia 22 de março, o menino Raimundo, também chamado Raimundo Oswald Cavalcante Barroso, ou apenas Oswald Barroso, pesquisador, professor, poeta, romancista, dramaturgo, letrista, diretor teatral, gestor cultural, historiador, antropólogo, jornalista, pai, esposo, avô, amigo e atleta até os 16 anos, a seguir nômade, fez sua última viagem, mas como sempre inquieto, e estando em sabe-lá-quantos lugares ao mesmo tempo, aqui segue, intimando a gente a brincar de ser feliz.
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