Mailson Furtado é escritor, dentre outras obras, de À Cidade (livro vencedor do Prêmio Jabuti 2018 – categorias Poesia e livro do Ano). Em Varjota-CE, fundou a CIA teatral Criando Arte, em 2006, onde realiza atividades de ator, diretor e dramaturgo, e é produtor cultural da Casa de Arte CriAr. Mailson escreve, quinzenalmente, crônicas sobre futebol e outros temas
Não é incomum, muito menos recente, o debate sobre déficit de leitura em nossa sociedade, que busca explicações para firmar diagnósticos e propor melhoras para o panorama encontrado
Foto: Lucas Emanuel/FCF
Bola da Série C do Campeonato Brasileiro 2024 no gramado do PV
Batendo perna no último final de semana, pela famosa Rua Grande, em Aracati, palco da terceira edição da Feira Literária do Ceará, vi uma multidão celebrar o encontro com o livro entre os stands a reunirem escritores, livreiros, editores, contadores de histórias, entre outros profissionais.
Ali, crianças e jovens folheavam páginas, e muitos, talvez, tendo o primeiro contato com um evento do tipo, a fomentar o prazer da leitura por ela mesma, longe de obrigatoriedades e utilitarismos.
Não é incomum, muito menos recente, o debate sobre déficit de leitura em nossa sociedade, que busca explicações para firmar diagnósticos e propor melhoras para o panorama encontrado.
Eu, como profissional deste campo já há, pelo menos, uma década, corro mundo afora com algumas falas sobre o papel da leitura e o do livro como elemento transformador da sociedade. Muitas delas acabam por adentrar no que foi exposto acima, o encontro do livro e leitura pelo leitor em potencial, onde aponto que, no mundo ideal, tal fato devia se dar da mesma forma que a maioria que se apaixona por futebol inicia sua paixão: o chutar de uma bola.
Marcada por objetividades e funcionalismos, nossa sociedade tende a maquinar tudo, e o ato de ler não passaria inerte a isso. Desta forma, nos é passado: leia, mas com um motivo.
Quando entramos no campo da leitura literária, em cerne subjetiva, a discussão ainda ganha mais elementos. Lembro que na escola, a disciplina de Literatura era marcada pelo estudo das características textuais das escolas literárias e suas contextualizações sociais e históricas, seguida de leituras “obrigatórias” das obras em questão.
Em nenhum momento, o fomentar do prazer de ler por ler esteve presente. Sinto que seria o mesmo que ao invés de dar uma bola para apresentar a alguém a paixão pelo futebol, se começasse a exposição pelo estudo de conceitos táticos. É preciso uma imaginação fértil para vislumbrar crianças e jovens se apaixonando por futebol por este caminho, no entanto, é assim que seguimos tentando apresentar literatura nas escolas.
Dentro desse utilitarismo tão presente em nosso meio, recentemente uma fala do ex-jogador Alex, em entrevista ao apresentador Benjamin Back, marcou-me muito.
Perguntado sobre a ausência de "camisas 10" no futebol brasileiro, Alex traz para questão a formação das categorias de base, onde os treinadores de jovens até 14 anos, diferentemente do que acontecia décadas anteriores, são cobrados por resultados. Dessa forma, atletas em formação, que deviam estar preocupados em experienciar o futebol, antes disso, já estão ocupados em ganhar, ou quando muito pior, em não perder.
E dessa forma vai se extinguindo a inspiração para criar. Que possamos, a partir disso, pensar que caminhos vamos dando às nossas experiências, celebrando os bons encontros, afinal, eles permanecem.
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