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Raiva de futebol
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Mailson Furtado é escritor, dentre outras obras, de À Cidade (livro vencedor do Prêmio Jabuti 2018 – categorias Poesia e livro do Ano). Em Varjota-CE, fundou a CIA teatral Criando Arte, em 2006, onde realiza atividades de ator, diretor e dramaturgo, e é produtor cultural da Casa de Arte CriAr. Mailson escreve, quinzenalmente, crônicas sobre futebol e outros temas

Raiva de futebol

Meu avô, de relance, ainda no sertão, ouvira falar de futebol, mas pouco pôde ver. Na cidade grande, era impossível passar despercebido pelo único assunto a tomar as ruas
Tipo Crônica
Bola de futebol na marca de escanteio no campo (Foto: Mateus Lotif/Fortaleza EC)
Foto: Mateus Lotif/Fortaleza EC Bola de futebol na marca de escanteio no campo

Guardando os ouvidos ao rádio enrolado no lençol, meu pai, ainda menino, fugia da fúria de meu avô ao ver os filhos enfeitiçados pelo futebol. Nunca pensou que aquilo tomaria sua casa, lotando a cabeça dos três filhos.

Meu avô, ainda rapaz, morador do interior de Reriutaba, guardando as economias de dois anos da safra do roçado, troca-as por um bilhete de trem da estação de Amanaiara até Camocim e, de lá, em mais uma passagem num vapor rumo ao Rio de Janeiro, para uma travessia de quase um mês Atlântico adentro.

Com a promessa de emprego de um conhecido doutro conhecido, repetiu a história de muitos, e ali firmou seus próximos dias — assustado como devia ser, diante do distante mundo comparado ao sertão.

Era 1950, junho o mês, e doutra coisa não se falava na capital federal: o retorno da Copa do Mundo depois do hiato causado pela Grande Guerra, tendo como palco o Brasil, com o maior estádio do mundo ali de pé a esperar tal festa, o Maracanã, com a possibilidade de, pela primeira vez, a seleção brasileira ser a campeã do mundo do esporte que já se firmava como uma paixão global.

Meu avô, de relance, ainda no sertão, ouvira falar de futebol, mas pouco pôde ver. Ali, na cidade grande, no início do inverno daquele ano, era impossível passar despercebido pelo único assunto a tomar as ruas.

Jogo a jogo, filas dobrando esquinas, ponto facultativo no trabalho, a cidade em quase carnaval. Dia a dia aguardava-se o grand finale para simplesmente confirmar o que já era esperado: o título mundial para o Brasil.

Ainda sem pouco entender, meu avô entusiasmou-se como todos ali, seria o único razinza da cidade inteira? Não. Não havia motivos pra isso. E seguiu a festejar jogo a jogo, mesmo à distância em conversas com os recentes amigos.

Na quinta-feira, 13 de julho, mais 150 mil pessoas viram o 6 a 1 do Brasil contra a Espanha. Faltava agora um mero empate no domingo, contra o Uruguai, para que tudo se concretizasse. Quem duvidaria disso?

Tudo era festa. Até que... todos já sabem como se deu o fim daquele domingo.

Meu avô (também) sentiu o baque. Como não sentiria? No caminho do trabalho, já logo após a partida, viu as ruas embiocadas, sem a mínima graça, com crianças, adultos, homens, mulheres e ele mesmo, junto aos montes, em uma angústia coletiva de um quase morrer.

No meio de tudo aquilo, ergueu a cabeça e ali mesmo desistiu — eis sua última partida de futebol. Dos 23 aos 87, não mais quis.

Ainda aquele ano voltou pro sertão, tendo sempre essa mesma história a repetir.

Anos depois, com a família já posta, mesmo pregando o contra, fingia não ouvir o ruído abafado do rádio embrulhado no lençol para esconder o grito de gol de cada um dos três filhos. Não. Ele não seria o responsável por ferir tal paixão nos meninos, afinal, por quase um mês, ele soube o que era amar futebol. Como explicar tudo aquilo?

Foto do Mailson Furtado

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