Logo O POVO+
Barco a vapor
Comentar
Foto de Marília Lovatel
clique para exibir bio do colunista

Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O Povo Mais (OP+), mantendo uma coluna publicada aos domingos. Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil - 2024.

Barco a vapor

Ele vinha singrando as águas onde desejo e realidade, sonho e concretização se misturam
Tipo Crônica
Comentar
Bece promove lançamento literário nesta quinta-feira, 6, Dia Mundial da Conscientização do Daltonismo (Foto: Barbara Moira/ Especial para O POVO em 03-10-2021)
Foto: Barbara Moira/ Especial para O POVO em 03-10-2021 Bece promove lançamento literário nesta quinta-feira, 6, Dia Mundial da Conscientização do Daltonismo


Posso gravar a nossa reunião on-line?, perguntei com a voz hesitante. Tinha certeza de que a emoção seria empecilho, me atrapalhando no absorver e reter das palavras — acontece assim quando finalmente se ouve algo há muito ansiado.

Ela me disse que, mesmo sendo o resultado, a essas alturas, de amplo conhecimento público, precisava preservar o ineditismo da ata do júri, que escolhera o meu texto entre mais de 1.100. Essa conversa aconteceu após a divulgação do original vencedor — diga-se de passagem. Entendi que a leitura oficial ocorreria no dia da premiação, restando agradecer a gentileza da antecipação de algumas preciosas informações e os cumprimentos.

Falamos um pouco sobre o projeto de edição de “Salvaterra — breve romance de coragem”, e ela me contou dos bastidores, ressaltando a tradição do concurso anual, que, ao longo de duas décadas, ajudou a lançar e consolidar nomes como Caio Riter e Stella Maris Rezende.

A primeira fase é a análise da adequação ao regulamento e fica na responsabilidade da equipe que opera a plataforma de inscrição. De 10% a 15% dos candidatos são eliminados por não conformidades do tipo submeter um gênero não previsto no edital ou pelo descuido de revelar o nome, esquecendo de proteger a identidade sob um pseudônimo.

Criar o pseudônimo considero um desafio: o de decidir o nome que sirva bem para nos representar e ocultar – imagino o processo que gerou Elena Ferrante e, no caso de Rachel de Queiroz, Rita de Queluz.

Na segunda fase, as produções concorrentes são distribuídas em numerosos subgrupos para serem lidos e avaliados. Depois, um júri técnico recolhe os pareceres e define os finalistas. Em 2024, foram 8, eu e mais 7. O meu nome constar nessa lista já me deixou feliz demais.

Por último, um segundo júri, composto por editores, críticos literários, curadores e escritores, entra em entendimento para a resolução definitiva. Seu texto percorreu todo esse trajeto até chegar aqui, como vencedor da 20ª Edição do Prêmio Barco a Vapor, ela explicou, e meus olhos se inundaram.

Emocionada, nem consegui contar a ela que dias antes, lendo um capítulo de “O amor nos tempos do cólera", acompanhei a embarcação diante da casa do Dr. Juvenal Urbino, sentei-me com ele “à tarde no pórtico para ver passar os cargueiros de Nova Orleans, pesados e cinzentos, e os navios fluviais de roda de madeira, com as luzes acesas ao entardecer, que iam purificando com uma esteira de música o monturo estanque da baía”.

O barco a vapor se aproximava de mim, ele vinha singrando as águas onde desejo e realidade, sonho e concretização se misturam.

Foto do Marília Lovatel

A soma da Literatura, das histórias cotidianas e a paixão pela escrita. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?