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O mar e a brisa
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Formada em medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), residência médica em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo (USP), Título de Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria

O mar e a brisa

O sofrimento é algo profundamente íntimo e solitário. O início célebre de "Anna Kariênina", de Tolstói, diz o seguinte: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". Portanto, cada um de nós sofre à sua maneira
Tipo Opinião
Johnny Alf, cantor, compositor e pianistqa
Divulgação (Foto: )
Foto: Johnny Alf, cantor, compositor e pianistqa Divulgação

Sentei ao piano para tocar "Eu e a Brisa", de Jonny Alf. Ao olhar minha partitura, uma cópia da partitura de minha professora datada de 1984, observei o recadinho de um amigo dela: "Para não se esquecer de mim". Sorri. Sempre que ouço essa música, fico emocionada. Já me sensibilizava ao ouvir minha irmã Paula tocá-la, numa época em que era familiarizada apenas com sua melodia.

Hoje, além da melodia, guardo intimamente sua letra comigo. "Ah, se a juventude que essa brisa canta... ficasse aqui comigo mais um pouco... eu poderia esquecer a dor... de ser tão só... pra ser um sonho..."

Comecei a cantarolar e fiquei com essa frase na cabeça: "a dor de ser tão só..." Então, pensei no inverso, na solidão da dor de cada um de nós.

O sofrimento é algo profundamente íntimo e solitário. O início célebre de "Anna Kariênina", de Tolstói, diz o seguinte: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". Portanto, cada um de nós sofre à sua maneira.

No último final de semana, assistindo a uma entrevista do Chico Anysio, com meus pais, no antigo programa "Roda Viva", fiquei surpresa ao saber que ele também era pintor. Suas pinturas geralmente continham imagens do mar.

Ele não retratava a figura humana. Um dos entrevistadores perguntou-lhe se ele não tinha receio de que o público o criticasse, afirmando que todos os seus quadros eram semelhantes. Ele, inteligentemente, respondeu: "Nunca é igual." E complementou: "As duas coisas de que mais tenho medo são o mar e a solidão."

Ele expressava, através do que pintava, o que mais o assustava. E fiquei pensando que a solidão dele era imensa, assim como o mar, portanto, seus quadros jamais seriam iguais; e, se outro artista expressasse sua solidão através da imagem do mar, teríamos outras infinitas representações.

Voltando à música, o verso que mais me toca é o seguinte: "Fica... oh brisa fica, pois talvez, quem sabe... o inesperado traga uma surpresa..." O "fica" é uma oitava decrescente. O som é tão belo, soa quase como uma súplica.

Aqui estamos nós, cada um com seu mar à espera de uma brisa, desejo que, quando ela surja, seja suave e leve.

 

Foto do Patrícia de Sá Cavalcante

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