Logo O POVO+
Guerra e Paz
Foto de Paulo Henrique Martins
clique para exibir bio do colunista

Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris I. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador do Núcleo de Cidadania, Exclusão e Processos de Mudança (Nucem – UFPE)

Guerra e Paz

O filósofo indiano Krishnamurti lembra que a causa da guerra é o "desejo de poder, posição, prestígio, dinheiro além dessa praga chamada nacionalismo". O comentário sugere que os discursos em defesa da globalização revelam motivações ocultaselicistas que desconstroem continuamente os sentidos humanistas e democráticos
Paulo Henrique Martins, professor da UFPE e ex-presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia (Alas) (Foto: Acervo pessoal)
Foto: Acervo pessoal Paulo Henrique Martins, professor da UFPE e ex-presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia (Alas)

O romance "Guerra e Paz" de L. Tolstói aborda dramaticamente a guerra entre França e Rússia e as intrigas das elites dominantes nas primeiras décadas do século XIX. Para o autor, aqueles eventos sugeriam que o livre-arbítrio humano estaria submetido a um implacável determinismo histórico que definiria a felicidade e a tragédia. Esta obra continua apropriada para se pensar o mundo, hoje, revelando a persistência de uma lógica de conflito nacionalista e étnico que questiona o discurso ufanista da globalização. De fato, pensando nas guerras no século XX e XXI e no atual conflito entre Ocidente e Rússia, os pressentimentos de Tolstói parecem se confirmar.

Porque esta tendência ao morticínio? Convidemos o olhar oriental. O filósofo indiano Krishnamurti lembra que a causa da guerra é o "desejo de poder, posição, prestígio, dinheiro além dessa praga chamada nacionalismo". O comentário é oportuno por sugerir que os discursos em defesa da globalização revelam motivações ocultas que escondem alucinações nacionalistas e belicistas que desconstroem continuamente os sentidos humanistas e democráticos.

O autor indiano explica a guerra como resultado não de meras lutas guiadas por ideais abstratos, mas por razões concretas ligadas a nossos relacionamentos uns com os outros. Sendo esses relacionamentos fundados em grande parte em crenças e dogmas pelos quais estamos dispostos a morrer e matar, então a guerra é ao mesmo tempo uma experiência de conflito, externa e interna a cada um. Ela agrava nossa insegurança psicológica, por um lado, e o desejo de poder, dinheiro, conforto e segurança física, por outro.

Por isso, sublinha o autor indiano, o mundo precisa de uma revolução psicológica voltada para acabar a guerra dentro de nós, para liberar relacionamentos saudáveis que expandam nossas capacidades de amar e construir pensamentos corretos. A paz somente virá quando não mais adiarmos esta ação de transformação interior que leva à ação exterior. Isto implica, nós concluímos, na valorização de um olhar inteligente sobre a finitude.

 

Foto do Paulo Henrique Martins

Ôpa! Tenho mais informações pra você. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?