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Três livros que você não precisa ler
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Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense

Paulo Linhares arte e cultura

Três livros que você não precisa ler

(porque alguém leu, eu mesmo, e vi que não valem tanto a pena)
Livro
Foto: BestSeller/Divulgação Livro "O lado B de Boni" narra história de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho

Na Web, nos jornais e nas livrarias, os livros mais bem posicionados e, aparentemente, mais vendidos são autobiografias escritas por famosos.

Como as livrarias e os jornais estão se transformando em coisas muito diversas do que eram, as livrarias são lojas de departamento que eventualmente vendem livros (este modelo de negócio não dá mais certo em nenhum lugar do mundo, hoje as pessoas ou vão a livrarias pequenas e boas, ou compram na Amazon, mas segue sendo assim em Fortaleza, vai entender), e os jornais, papers, são hoje para quem de fato gosta muito de ler (como New York Times, O Globo, a Folha e O POVO, ou seja ficaram somente os muito bons).

Quem tem nome, vende para o leitor médio, que lê apenas um ou dois livros por ano.

Uma vez, resolvi comprar um apartamento em Fortaleza muito bom, daqueles caros mesmos, em que pudesse colocar todos os meu livros.

Visitei seis deles para tentar me encantar com algum. Parece exagero do Aguinaldo Silva, mas em quatro deles, em todo apartamento, não encontrei um só livro. Perdi algumas noites de sono pensando em como nossas elites são ágrafas.

Escolhi três livros que poderiam ser relatos bem interessantes, pois se propõem a contar trajetórias de personagens que tiveram papéis fundadores na indústria do entretenimento brasileira. Mas usei de uma estratégia que venho sugerindo aos amigos (eles me olham com descrédito, para dizer a verdade, como se eu estivesse blefando e dizendo que não gosto de torta de limão e as como escondido).

A ideia é a seguinte: eu acabei me acostumando com o Kindle.

No começo, achava ridículo. Depois, o preço mais baixo, a comodidade de levar facilmente para todo lugar e as vantagens de grifar trechos eletronicamente, rapidamente abrir dicionários e enciclopédias para checar informações, acabaram me tornando um usuário habitual. Mas, então, descobri que o que me lavava as livrarias, além do contato com as estantes e o papel, era poder folhear cada livro para verificar se de fato valeria a pena comprar. O Kindle, se você faz a solicitação eletrônica, ele lhe envia imediatamente três ou quatro capítulos quando o livro está no catálogo eBooks Kindle.

Então, o jogo que vou fazer essa semana - com três livros um tanto quanto suspeitos - é ler somente alguns capítulos iniciais e contar pra vocês leitores se vale a pena clicar no botão de compra.

Vamos começar pelo livro do Aguinaldo Silva, "Meu passado me perdoa. Memórias de uma vida novelesca". Editado pela Todavia.

Se me perguntassem dos três, qual livro eram mais baixas minhas expectativas, eu diria que era o do Aguinaldo. Não gosto das ideias recentes dele e sempre me pareceu, e continua assim, um pensamento anti-intelectual, uma das características da maior parte dos dos criadores da velha geração da TV brasileira. Com algumas exceções notáveis, Oduvaldo Vianna Filho, Dias Gomes (por sinal um grande desafeto de Aguinaldo) e Daniel Filho, são algumas delas.

Mas dos três que comentarei aqui, Aguinaldo foi o único que me levou mais fortemente a pensar em clicar no diabo do botão de comprar.

Vou explicar o porquê sem hesitação. Mas antes deixe eu dizer o que caracteriza o estilo Aguinaldo.

A cultura do entretenimento americana faz uma distinção entre novel e novela. Trata-se de um falso cognato do inglês que confunde muitas pessoas e que tem a ver com a literatura: A dupla "novel" e "novela".

Novel é a palavra em inglês para "romance". Mas esse romance é no sentido de gênero literário, não como caso de amor, namoro. Essa confusão é bem comum, pensando que livros em formato de prosa com histórias de amor são romances românticos. O inglês desfaz essa construção, referindo-se a essas histórias como "romance novels".

Temos ainda as novelas, que são aquelas tramas televisivas, narradas em capítulos e que sempre deixam o espectador esperando pelo próximo. Esse tipo de narrativa é dito pelo inglês como "soap opera" - sim, óperas de sabão. Essa nomenclatura se explica porque, no início, as novelas eram patrocinadas por fabricantes de sabão.

O texto do Aguinaldo não é uma novel. É uma soap opera (uma novela, sempre de TV).

E é muito bem executado.

No capítulo que abre o livro, que tem o titulo de "pobre, feio, esquisito e afeminado", ele conta que, aos 13 anos, seus colegas de escola tentaram humilhá-lo elegendo-o Rainha da Primavera. No mesmo dia, um homem o encontrou atordoado na rua e o levou para a pensão onde morava — e abusou dele. Aguinaldo conta que bloqueou o episódio e só conseguiu recordá-lo décadas depois. Na juventude, ele e os amigos formavam As alercãs, uma trupe gay que frequentava as noites do Bem-Me-Quer, um jardim plantado às margens do rio Capibaribe, no Recife. Eles eram sistematicamente perseguidos por uma gangue de motoqueiros, filhos da elite recifense. Quem defendia as alercãs era um homicida de aluguel.

Aguinaldo conta que quando lançou seu primeiro livro no Rio, Clarice Lispector apareceu na livraria e perguntou: "Tem certeza que você não é uma menina?".

Será que isso realmente aconteceu?

Provavelmente, não.

Aguinaldo, apesar de ser um sucesso arrasador nas novelas, nunca foi reconhecido no campo literário. Daí ele escolheu Clarice, a musa literária para se vingar.

Suas falas são sempre de quem sofreu muito e guardou a dor na geladeira.

Não é a toda que ele ataca a psicanálise com argumentos pueris.

As novelas de sopa do Aguinaldo tem muita pimenta. Ele cospe nas suas sopas sem parar.

Mas sua narrativa novelesca prende o leitor.

Ele tem muita técnica e alterna ganchos perfeitos ao repetir de ação, suspense, mistério, drama, romance e comédia. E tome viradas. É um turbilhão sequencial.

"Meu Passado me Perdoa" não é uma autoficção genial para subir o panteão literário, mas é envolvente e nos faz lembrar que certas dores, nascidas do racismo, homofobia, aporofobia, doenças típicas da sociedade brasileira, talvez, não passem nunca.

O segundo livro é de outro grande escritor de novelas de TV, "Gilberto Braga- O Balzac da Globo. Vida e obra do autor que revolucionou as novelas brasileiras" (Editado pela Intrínseca), anuncia que vai colocar Gilberta Braga no podium correto.

Além do título, em sua epígrafe há uma citação do próprio Gilberto que diz:

"Desculpe. Eu não sou um autor. Sou simplesmente um escritor de folhetins".

O livro é uma biografia escrita em terceira pessoa com dois autores: Artur Xexéo e Mauricio Stycer. Uma nota no início do livro explica a dupla autoria.

Entre junho e setembro de 2019, Artur Xexéo entrevistou Gilberto Braga em pelo menos doze ocasiões. Os encontros aconteceram sempre aos domingos, pontualmente às 17 horas, no apartamento do novelista, no Arpoador. Ao final da última entrevista, o jornalista disse que estava satisfeito com o que considerava ser uma primeira etapa do trabalho. "Queria interromper as nossas conversas e voltar depois", disse Xexéo a Gilberto. O passo seguinte, explicou, seria colher depoimentos das pessoas que passaram pela vida do autor.

O trabalho, porém, foi interrompido abruptamente em junho de 2021.

Naquele mês, Xexéo foi diagnosticado com um linfoma e faleceu. Tinha 69 anos. Três semanas depois, Gilberto Braga telefonou para Mauricio Stycer e o convidou para prosseguir.

O livro é isso. Uma parceria meio triste, complicada, em que Stycer parece pisando em ovos de codorna. Nos primeiros capítulos, uma história emblemática: o avô paterno de Gilberto mata a avó, dramaticamente, e fica preso como louco o resto da vida. Aguinaldo Silva teria feito o diabo com essa história. Mauricio Stycer/Artur Xexéo tratam delicadamente.

O subtítulo o Balzac da TV Brasileira tem um duplo sentido: Gilberto Braga dizia que fazia tudo por dinheiro. Balzac era endividado e produzia aos borbotões para pagar dívidas. Gilberto era professor de francês liso antes de entrar na TV, portanto tinha uma cultura afrancesada (ao contrário do brasileiríssimo Aguinaldo Silva) e levava para um campo de poucos referenciais clássicos alguns padrões literários cultos.

Tenho a impressão que se acertasse o botão e pagasse R$ 58,41 pelo eBook poderia vir a me surpreender.

O terceiro livro é uma espécie de segunda biografia do Boni, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho,o homem que inventou o padrão globo de qualidade

O livro se chama "O lado B de Boni" (editora Bestseller) e no prefácio o malandro Ricardo Amaral dá uma no cravo ao narrar que Luís Carlos Miele dizia que o Boni saiu da Globo no sábado e, na segunda-feira, ela já não era a mesma; e outro na ferradura, quando diz que o livro era o lado B da versão 1 a sua biografia oficial chamada o livro do Boni. Chamar o livro o lado B do Boni de continuação da sua biografia oficial diz quase tudo.

A gíria "o lado B" vem da indústria fonográfica e significava o lado do LP que se seguia ao A. No lado A se colocava o que ia tocar nas rádios. O lado B era o que o criador era capaz de inventar de novo e poderia colar ou não.

O lado B do Boni é definido por ele mesmo: B de Bom. Eu acrescentaria B de bonzinho. O livro é Boni contando bondades de grandes nomes da TV que ele não agradeceu adequadamente na primeira biografia. Ele conta situações para dizer que fulano era genial, incrível. É chato. Tem texto pra lá de convencional. Só quem gosta demais dos bastidores da TV brasileira vai se sentir recompensado pelo investimento de 39,90 (Ebook) ou 80,52 (Edição impressa).

Resumindo, o que é possível observar com tantas histórias é que eles estão falando de um tempo que não volta mais. Foi quando a televisão aberta era a dona do pedaço. A Globo tinha 90% da produção ficcional brasileira de TV.

O streaming, o tiktok, o youtube, o instagram, mudaram tudo. Só um dado para o leitor descobrir como as coisas se transformaram: a Netflix no Brasil tem 6 vezes mais assinantes que a Globoplay e a Netflix tem centenas de bilhões de dólares mais do que a Globoplay (até porque os seus maiores acionistas são players das telecomunicações).

Mais uma vez, como no cinema, os Estados Unidos engoliram a indústria de conteúdo brasileira. Para usar o conceito chave do meu próximo livro, somos cada dia mais pericêntricos, eles nos deixam com a sensação que estamos perto do centro, mas estamos a cada dia mais na periferia da produção cultural do mundo (e atentem, o Ceará é a periferia da periferia, o Sudeste é a periferia e nós somos o resto).

Conta o argentino César Arias, que deve ganhar o Nobel em outubro, que Adolfo Couve, ao terminar uma exposição sobre a pintura do renascimento, disse que ao morrer Rafael "morreu a juventude ".

Eu diria que a primeira fase da TV brasileira morreu com Assis Chateaubriand, a segunda com Silvio Santos, a terceira acabou com a demissão do Boni (Boninho é uma réplica ruim do pai), a quarta foi o apogeu dos folhetins e seus grandes autores e está desaparecendo com Dias Gomes, Gilberto Braga e a aposentadoria de Aguinaldo Silva.

A morte das nossas novelas é um pouco a morte da nossa adolescência.

R.I.P.

 

Foto do Paulo Linhares

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