
Renato Abê é jornalista, escritor e especialista em jornalismo cultural com pós-graduação em artes cênicas
Renato Abê é jornalista, escritor e especialista em jornalismo cultural com pós-graduação em artes cênicas
Fernanda Montenegro sabe das coisas. Nesta semana, a artista de 95 anos emocionou o País ao estender a mão para Linn da Quebrada, cantora e atriz que enfrenta problemas de saúde mental.
"Lina querida, a gente tem que se conduzir na vida, tem que ter fôlego e tem que ter sonho, a vida é sonho. Então, se é sonho, a gente tem que realizar o sonho com o nosso fôlego", apontou Fernanda, em áudio, para a atriz paulista com quem divide a tela no exitoso filme "Vitória".
As palavras da matriarca das artes cênicas brasileiras têm ecoado na minha cabeça. Fernandona sabe escolher palavras profundas e emocionais sem cair no pieguismo. Essa reflexão diz muito aos profissionais da cultura de uma maneira ampla.
Pensando nisso, conecto o dito pela indicada ao Oscar com o principal acontecimento cultural do momento aqui no Estado: a XV Bienal Internacional do Livro do Ceará. Um evento desse porte só é possível com muito sonho e folêgo.
São 188 estandes, mais de 400 editoras representadas pelas 25 livrarias e 32 distribuidores de livros. Entre esta sexta-feira de estreia, dia 4, e o próximo dia 13, serão expostos mais de 100 mil títulos. É muita gente sonhando por meio da literatura.
Afunilando para o recorte dos autores cearenses, o evento é a culminância de ações continuadas (e suadas) de quem segue insistindo que vale a pena refletir, fabular e reimaginar narrativas por meio do livro e da leitura. Entre a tão exaustivamente falada aceleração do consumo de informação e o esvaziamento via Inteligência Artificial, insistir no artesanal e no verdadeiramente relacional é um muito custoso — mas também muito inspirador, um sopro esperançoso.
Nos próximos dias, autores renovarão sua fé no ofício, a partir do contato com os leitores. Para alguns, será a primeira oportunidade para falar de uma tão planejada obra que agora é palpável.
Professores e alunos descobrirão juntos novas formas de discutir pautas, empresários do setor literário trocarão experiências e o poder público receberá indicativos do público participante sobre as necessidades dessa linguagem artística muitas vezes escanteada.
Voltando às palavras de Fernanda, a Bienal será a chance de muita gente que se esforçou para "conduzir a vida" junto ao mundo dos livros renovar essa relação – repactuando, assim, os sonhos para, cercado de gente talentosa, retomar o fôlego.
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