A recente eleição municipal demonstrou persistir o uso por diversos candidatos, com determinado perfil ideológico, de slogan comumente associado a raízes fascistas e integralistas, o que deve fomentar um debate acerca dos seus fins e de sua compatibilidade com o pluralismo político e ideológico inerente ao Estado Democrático de Direito.
Com efeito, o uso da expressão Deus, pátria e família se mostra um resquício de lema que inspirou o fascismo italiano e o integralismo brasileiro, visando assegurar unidades de pensamento e concepções de mundo, com o escopo de adoção de modelos sociais, políticos e estéticos padronizados, dando espaço ao surgimento de líderes ditatoriais e à eliminação das diferenças de pensamento, marca dos vários regimes totalitários do século 20.
Nesse sentido, a invocação de um Deus, olvidando representar a fé, ou sua ausência, uma postura e decisão individualizadas, se mostra em completo desacordo com o estado laico, o único que se mostra apto a resguardar o livre exercício de todas as crenças e tradições, especialmente quando implica na escolha de uma determinada divindade em detrimento de outras. Não existe democracia em estado teocrático, razão pela qual incabível se utilizar dessa perspectiva como plataforma eleitoral e muito menos na definição de políticas públicas.
A invocação da pátria nesse lema também se mostra totalitária e abusiva. Aqui cabe perguntar: a pátria que exclui ou a que reconhece e busca reduzir as diferenças? A que oprime ou que forma cidadãos conscientes de seus direitos e deveres? O uso do conceito como posto evidencia a tentativa de submeter a população ao domínio de líderes autoritários, servindo como elemento de autoridade e às mais variadas manipulações.
Por fim, não se ignora o caráter essencial da família na sociedade, enquanto célula de proteção e desenvolvimento dos indivíduos. Ocorre que ela deve ser protegida e respeitada em todos os seus diferentes modelos e arranjos, e não apenas segundo sua conformação tradicional que se pretende impor.