71% dos feminicídios no Ceará não têm motivação informada
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Sara Oliveira é repórter especial de Cidades do O Povo há 10 anos, com mais de 15 anos de experiência na editoria de Cotidiano/Cidades nos cargos de repórter e editora. Pós-graduada em assessoria de comunicação, estudante de Pedagogia e interessadíssima em temas relacionados a políticas públicas. Uma mulher de 40 anos que teve a experiência de viver em Londres por dois anos, se tornou mãe do Léo (8) e do Cadu (5), e segue apaixonada por praia e pelas descobertas da vida materna e feminina em meio à tanta desigualdade
71% dos feminicídios no Ceará não têm motivação informada
Sem mapear, discutir, investigar, considerar e tipificar de forma minuciosa as circunstâncias em que mulheres são torturadas, violentadas e assassinadas, nem todas as políticas de prevenção do mundo serão capazes de dar conta da realidade
Foto: Ricardo Stuckert / PR
09.10.2024 - 09.10.2024 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a sanção do PL 4266/2023, que lei que agrava pena de feminicídio e de outros crimes praticados contra a mulher, no Palácio do Planalto. Na foto (da esquerda para a direita): Ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet; Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; Ministra das Mulheres, Cida Gonçalves; Ministra da Gestação e Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck; Advogado-Geral da União, Jorge Messias e o Secretário-Executivo do Ministério da Justiça, Manoel Carlos de Almeida. Brasília - DF. Foto: Ricardo Stuckert / PR
Em 71% dos casos de feminicídios no Ceará, a motivação do crime não é informada nos inquéritos e processos. Em 51,9% dos casos de violência contra a mulher também não há identificação da motivação. Os dados são de 2024, do boletim "Elas Vivem: um caminho de luta", que traz outras "não informações" sobre a morte de mulheres no Estado.
Quando se considera as circunstâncias nas quais o feminicídio ocorreu, em 50% dos casos consta que "não foi possível identificar" ou "outros". A falta de dados precisos e de qualidade sobre o porquê e como as mulheres são assassinadas impacta diretamente no não conhecimento do que é preciso fazer para que os números diminuam.
Na verdade, para que esses números zerem, como ressaltou o governador Elmano de Freitas (PT) após ser questionado sobre os casos recentes de feminicídio. Matéria da repórter Mirla Nobre, do dia 1º de abril deste ano, mostrou que pelo menos cinco mulheres foram mortas em uma semana no Ceará, em quatro ocorrências.
Um dos casos é o de Beatriz, que foi enforcada pelo namorado com o cinto de segurança do carro, em Fortaleza.
No caso de Gabriele, ela foi esfaqueada em uma pousada de Independência pelo companheiro, que tirou a própria vida após o crime.
Outras três mortes de mulheres, divulgadas como homicídio, têm em suas histórias informações que correm o risco de não aparecerem nas investigações e processos. Mas que mostram indícios e motivações que podem corroborar com a conclusão de que aquele assassinato foi cometido por questões de gênero.
No bairro Jangurussu, na Capital, Gabriela e Krislla, duas jovens de 18 anos, foram alvos de tiros enquanto passavam de carro por uma rua. Elas foram perseguidas por homens em motos e, segundo testemunha, mortas por eles. Um dos envolvidos era o ex-namorado de uma das vítimas.
Na nota em que comunica a prisão de um suspeito do caso, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) afirma que ele foi autuado por homicídio doloso. E destaca que o homem tem passagens por tráfico, associação para o tráfico e desobediência. Um combo básico de antecedentes sobre os suspeitos de crimes no Ceará envolvidos em briga entre facções.
No dia seguinte, Eva também foi morta a tiros, em frente à igreja de Jijoca de Jericoacoara. Informações dão conta de que a mulher mantinha um relacionamento com um agente de segurança e, portanto, foi ordenada pela facção criminosa a deixar o local.
Junto à fala sobre zerar os feminicídios no Estado, o governador destacou que o Ceará tem o menor índice de feminicídio do País. Uma marca que tem sido divulgada sem considerar as diversas subnotificações e possíveis erros nas tipificações dos crimes contra mulheres.
Sem mapear, discutir, investigar, considerar e tipificar de forma minuciosa as circunstâncias em que mulheres são torturadas, violentadas e assassinadas, nem todas as políticas de prevenção do mundo serão capazes de dar conta da realidade. Muito menos de fazer uma epidemia ser reduzida a nenhum caso.
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