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O golpe da dentadura
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Jornalista, compositor, escritor, humorista, cantor e pesquisador da cultura popular. Escreveu várias composições em parceria com Falcão. É autor do livro

Tarcísio Matos arte e cultura

O golpe da dentadura

Tipo Crônica

Comício era com ele. Qualidade de político que não pode ver microfone e o verbo flui que é uma beleza; entre verdades e cavilações, deita e rola na boa vontade do eleitor. Numa dessas campanhas, período eleitoral decisivo, saiu de barco, rio abaixo, dirigindo-se à região amazônica comandada por um correligionário de nome Chicão. Pequena embarcação lotada de santinhos e ele vontadoso de ser sufragado, lá chegando à boquinha da noite. Povo já à espera do figurão à margem do corrente, gritando-lhe o nome.

Em breve tempo, tudo pronto pro início da "reunião pública ao ar livre" programada há semanas. Sistema de som acoplado à embarcação. E era assim, conforme relato do amigo Magno: candidato dirigir-se-ia ao povo do próprio barco, palco adequado pra ocasião, tendo ao lado tão somente o Chicão. Público feliz com a novidade, simpático ao que viria da boca do candidato. O companheiro abre o evento, apresentando Dr. Zezinho do Igarapé, "nosso representante na Assembleia. Só depende do nosso escrutínio".

Empolgado, o cicerone faz movimentos bruscos que balançam horrores o palanque improvisado. Daqui a pouco, ao rir desbragadamente das arrumações da liderança, a dentadura superior de Dr. Zezinho é arremessada às águas do rio. Vexame medonho. A palavra agora seria dele. Prótese no fundo do igarapé, o candidato, mão na boca, fala de "trevessa", informando que não tem condição de se pronunciar.

- Dr. Zezinho, faça comigo não, o senhor me acaba. Chamei todo mundo aqui pra ouvi-lo. E agora? - desespera-se o cabo eleitoral.

- Dê um jeito! Sem dentadura, banguela, não darei um pio!

Chicão tem ideia: chamar mergulhador e procurar, lá embaixo, os dentes postiços de Dr. Zezinho. Conhecia o melhor - Mané Turiba.

- Pelo amor de Deus, Mané, me salva! Encontra a dentadura desse homem - fala Chicão, mostrando o lugar provável. - Se achar, te dou 300 contos.

- Fechado, vou tentar!

Passados três minutos, o mergulhador emerge, dizendo que estava bem difícil, água escura, a profundidade. Chicão sobe 100 reais e pede que remergulhe. Nada. Mais 100 e o moço, pela terceira tibunga no rio. Nada de dentadura. Tempo passando, noite correndo ligeira, público ansioso à espera da fala do candidato, morto de vergonha.

- Pelo amor de Deus, Mané, Dr. Zezinho precisa falar! Tente. Te dou... mil reais!!!

- Ah! Tá bom!

Eis que o esforço sacrificoso - pela paga dos mil reais - foi recompensado. O mergulhador volta do fundo do rio com a dentadura de Dr. Zezinho em mão, entrega-a ao líder comunitário, recebe a grana e se manda. Correligionário bate palmas; plateia, sem nada entender, bate palmas também. Dentadura com o dono. Dirigindo-se ao microfone, bem escuro àquela hora, o candidato tenta encaixá-la, mas...

- A bicha não entra, Chicão. Já tentei dum lado, do outro... Dá na minha boca não!

Virando a cara pra trás, apruma a vista com a ajuda de uma lanterna e percebe não se tratar da dentadura dele. Reclama-se a Chicão e um grito alucinante ganha a Amazônia toda:

- Mané Turiba, seu fí de rapariga!!!

PS.: Por mil reais, Mané, o mergulhador, entregou a própria dentadura.

Bicho véi lesado ou véi lesionado?

O Poeta dos Cachorros Jair Moraes manda recado no zap, dizendo assim: "TMatos, o meu vizinho Zé dos Anjos, bicho véi lesionado, foi pai tão tarde que botou no único filho o nome de neto: José dos Anjos Neto".

Foi mesmo, Jair?!?

Foto do Tarcísio Matos

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