O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou ontem a imposição de uma série de taxas em reciprocidade aos seus parceiros comerciais. O Brasil será impactado com taxas de 10%, o patamar
mínimo, assim como a maioria dos países latino-americanos. Já as da União Europeia, China
e Vietnã serão, respectivamente, de 20%, 34% e 46%.
Parte das medidas passa a valer a partir de hoje. É o caso, por exemplo, da taxa de 25% sobre todos os veículos importados, também confirmada ontem. A tarifa de 10% entrará em vigor no dia 5 de abril, enquanto as mais elevadas serão aplicadas no dia 9 de abril.
A ofensiva foi alardeada por Trump como o "Dia da Libertação". “O que eles fazem conosco, faremos com eles”, afirmou o presidente americano em discurso na Casa Branca.
Segundo ele, a medida é “gentil”, considerando que as taxas são inferiores às que são impostas ao país, mas necessária para tornar os “Estados Unidos grande novamente”. “Muitas vezes, os amigos são piores
do que os inimigos em termos de comércio. Eu acho que isso acabou arrasando nossa base industrial e colocando a nossa segurança nacional em risco.”
A primeira confirmação de taxa foi sobre carros produzidos fora dos Estados Unidos, em 25%. Ainda durante seu discurso, Trump citou as relações desproporcionais com Canadá, México, China, Coréia do Sul, Japão, União Europeia, Austrália, o que "empobrece" os Estados Unidos.
"Começaremos a ser mais espertos e seremos ricos novamente. Tanto da nossa riqueza foi tirada da gente e não podemos deixar isso acontecer, podemos ser mais ricos do que qualquer país", continuou.
Com um quadro nas mãos, Trump acusou a China de cobrar 67% em taxas de importação sobre produtos dos EUA, o que será respondido com uma taxa padrão de 34%. No caso da União Europeia, taxas de 39% serão respondidas com sobretaxas de 20%.
Para outros países existem casos de tarifas ainda maiores e também penalizações a países liderados por aliados a Trump, como Vietnã e Japão, as taxas são de, respectivamente, 46% e 24%.
A lista de países que receberam "tarifas recíprocas" pelos Estados Unidos soma 185. Destes, 106 receberam a taxação "mínima", de 10%. A taxação mais alta aplicada foi de 50% para Saint-Pierre e Miquelon (coletividade de ultramar da França situado no noroeste do oceano Atlântico, próxima ao litoral do Canadá) e Lesoto (África).
O presidente americano também pôs fim à isenção de tarifas para pequenos pacotes enviados da China, o que afetará os gigantes do e-commerce como Shein e Temu
Por enquanto, o principal impacto que a gestão Donald Trump já impôs ao Brasil foi o do último dia 12 de março, uma taxa de 25% sobre a compra de aço e alumínio brasileiro, segundo principal item da pauta exportadora brasileira ao país, com US$ 2,8 bilhões em vendas em 2024 - atrás somente do petróleo, que teve US$ 5,8 bilhões.
Para o doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Gesner Oliveira, esse foi o maior retrocesso do multilateralismo em 60 anos.
Ele entende que pode haver recursos na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas devem ser inócuos. Do ponto de vista do Brasil, avalia que há impacto, mas menor em relação a uma série de países, o que abre possibilidade também de ganhar mercado em alguns setores.
Dando o exemplo do agronegócio, avalia que há oportunidades a partir de sobretaxas para China e Canadá.
"Acho que é muito importante o Brasil manter um discurso de cautela, sem radicalização, procurando se diferenciar. De qualquer maneira, o impacto sobre a economia mundial é grande porque gerou um choque na economia mundial extremamente forte. E, pela primeira vez por política econômica, após termos visto choques causados, por exemplo, pela quebra de banco na crise de 2008 ou o choque do aumento do preço do petróleo".
Augusto Fernandes, CEO da JM Negócios Internacionais, destaca que os produtos vendidos ao mercado norte-americano se tornarão mais caros, mas espera que negociações entre as partes possam ocorrer.
"O importador, pelo volume de compras, vai pedir desconto. E o exportador, que não quer perder o cliente, acaba concedendo esse desconto para cobrir o aumento da tarifa. Em linhas gerais, ficamos até em uma situação razoável, porque outros países foram mais tarifados", pontua. (Colaborou Fabiana Melo)
INDÚSTRIA
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que o momento é de detalhar quais são os impactos e buscar reforçar o diálogo com os EUA, mas que estão preocupados com qualquer medida que dificulte a entrada de produtos nacionais naquele mercado
Câmara aprova projeto de retaliação tarifária no Brasil
Após a imposição de tarifas de 10% sobre produtos brasileiros, a Câmara dos Deputados aprovou uma lei que permite reação do Brasil às barreiras comerciais impostas unilateralmente aos produtos nacionais. O texto segue para sanção presidencial.
A aprovação ocorreu horas após o discurso de Donald Trump e minutos após nota conjunta do governo brasileiro, assinada pelos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), em que lamenta a decisão e afirmar que a tese de "reciprocidade comercial" não reflete a realidade.
Segundo dados do governo norte-americano, o superávit comercial dos EUA com o Brasil em 2024 foi da ordem de US$ 7 bilhões, somente em bens. Somados bens e serviços, o superávit chegou a US$ 28,6 bilhões no ano passado. Trata-se do terceiro maior superávit comercial daquele país em todo o mundo.
"A nova medida, como as demais tarifas já impostas aos setores de aço, alumínio e automóveis, viola os compromissos dos EUA perante a Organização Mundial do Comércio e impactará todas as exportações brasileiras de bens para os EUA", afirmou em nota.
O governo ainda diz que permanece aberto ao diálogo, mas que apoia a aprovação da Lei da Reciprocidade das tarifas e consultará o setor privado para "defender os interesses dos produtores nacionais junto ao governo dos Estados Unidos".
Em meio à questão, o Congresso Nacional pautou com urgência a questão para criar mecanismos que possibilitem o Brasil a retaliar países que imponham barreiras comerciais a produtos nacionais. A medida foi necessária porque o País não adotava tarifas específicas contra outros países, pois segue a regra da Organização Mundial do Comércio (OMC) que proíbe favorecer ou penalizar um "colega de bloco" com tarifas.
De acordo com levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), 48% das exportações norte-americanas para o País entraram sem imposição de tarifas. Outros 15% do total de produtos foram taxados em no máximo 2%. Ou seja, 63% dos produtos comprados pelo Brasil do mercado dos EUA são taxados em até 2%.
O levantamento da Amcham revela ainda que a tarifa média nominal brasileira para o mundo é de 12,4%. Já a tarifa média efetiva ponderada sobre as importações americanas é de somente 2,7%, uma vez que a maioria das importações brasileiras diz respeito a produtos como aeronaves, petróleo bruto e gás natural, atualmente com tarifas zeradas pelo Brasil.