Os pais são capazes de qualquer coisa para a realização profissional dos filhos: abdicação de emprego, da convivência diária, do lazer. Acontece até mesmo de sofrer com a repressão de terceiros. Tudo isso e muito mais aconteceu com Afrânio Andrade, pai de Felipe Jonatan, lateral-esquerdo do Fortaleza.
Afrânio se dividiu por muitas vezes nas suas tarefas como feirante da José Avelino — a melhora na condição de vida não o tirou do Centro de Fortaleza — para poder ajudar e contribuir de forma direta com a realização do sonho de Felipe em se tornar jogador do futebol.
Agora, ele vive um mundo que já vivenciou outrora. Isso porque seu outro filho, Afrânio Alisson, começa a galgar o mesmo caminho do irmão. Lateral-direito do sub-17 do Fortaleza, o jovem assinou contrato de formação com o Tricolor do Pici e já até treinou com o irmão no profissional.
O empecilho maior na vida de Afrânio pai, agora, é conciliar o lado coruja — normal na paternidade — com o de orientador para uma carreira de sucesso dos filhos-pupilos. A relação é daquelas que mostram a importância da família no processo de formação de um jogador de futebol.
Em casa, porém, os três deixam claro que são brincalhões. Felipe e Afrânio gostam de tirar a paciência da figura paterna, que garante "não deixar barato".
Depois de cinco temporadas atuando no Santos, Felipe retornou ao Fortaleza, onde fez base até o sub-15. Em sua chegada, havia deixado claro que recebeu propostas financeiramente melhores. Mas jogar no Leão, para o camisa 36 nunca foi sobre sobre dinheiro. Era a realização do sonho da família e do pai.
O POVO - Como você se sente vendo um filho já com uma carreira consolidada, atuando num grande clube, realizando um sonho da família?
Afrânio - A ficha ainda não caiu. Quando era mais novo, falava que queria ter um artista na família, seja ator, jogador. Qualquer família pensa em ter uma pessoa assim e veio ele (Felipe Jonatan). No Bom Jardim (bairro da Capital), ele ficava brincando na rua, aí veio um menino na "bodega" do vô dele e disse: "Seu Zé Maria, comprei o Felipe". Ele respondeu: "Por quanto?" "Um real". Nos bairros mais humildades, não temos boa perspectiva de vida. Jogar no Ceará e no Fortaleza, era coisa de gente rica, mas não é.
Eu não torcia time nenhum e comecei a gostar do Fortaleza. À época, eu trabalhava na Ceasa e já ficava com minhas coisas arrumadas. Eu pegava as coisas dele (se emociona). Os outros me chamavam de louco, maluco, na feira da José Avelino. Algumas pessoas da família também. Mas eu sabia do potencial dele.
Cheguei para ele e perguntei: "Você quer estudar ou quer jogar?". Ele disse que queria jogar. Cheguei em casa e disse à mãe dele para tirar do colégio. No dia que ele saiu de casa, para o Bahia eu chorava na beira da cama, queria nem olhar para minha mulher. Morria de saudade dele.
O POVO - Agora, outro filho seguindo o mesmo caminho. Na base do Fortaleza, também lateral, mas direito..
Afrânio - É, eu falo sempre para eles que esqueçam amizade. Amizade é pai e mãe. E eu falo: não tenha medo de errar. Lateral tem que subir e descer, ter coragem. Se errou a primeira vez, tem que voltar até acertar.
Graças a Deus teve essa chance de vir ao Fortaleza, fazia tempo que eu tinha vontade de trazê-lo. Quando o Felipe veio para cá, vi a oportunidade de trazer mais rápido
O POVO - Como você equilibra o papel de pai e mentor? É possível essa divisão?
Afrânio - Tem que ter muita cabeça. Quando chega nesse patamar, a pessoa precisa ter a cabeça centrada. Muitos pais acontecem de brincar e beber. O que eu passo a eles é que um dia vai passar (a carreira).
Mas ele (Felipe Jonatan), ajuda muito a gente. Hoje nós moramos num canto bom por conta dele. Primeiramente Deus e depois, ele. Se não fosse, não teríamos saído do Bom Jardim.
Você tem que centrar a cabeça. Não magoar e nem machucar ninguém. Quando alguém chega até mim pedindo para falar com ele, eu passo a ele, se der tempo, ele fala. Acho muito legal isso
O POVO - Lembra de algum conselho ou lição importante que deu a eles, e você nota que realmente seguem o que foi dito?
Afrânio - Esse aqui (Felipe) é um paizão. Um pai presente, Leva os filhos para churrascaria, brincar, passear, para um lazer, né?
Esse (Afrânio), é meio sem vergonha (risos). Faz umas brincadeiras comigo em casa, Mas a vida da gente é isso. Brincamos, tem briga também. Curtir a vida para mim é isso. Nada contra quem bebe. Quem quiser, que faça. Minha diversão é brincar com eles.
O POVO - O Felipe e o Afrânio como filhos, como é a essa relação?
Afrânio - São dois brincalhões. (Eles) Me derrubam dentro de casa (risos). Eu sou um cara muito correto, mas sou "moleque". Já trabalhei em sinal, porque meu pai era carrasco, então passo isso para eles.