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Sara Oliveira: Violência chega ao extremo e crianças morrem em espaços de lazer
Opinião

Sara Oliveira: Violência chega ao extremo e crianças morrem em espaços de lazer

As ações ostensivas anunciadas após as ocorrências da semana passada, com mais de dois mil novos policiais em atuação, me fazem questionar o rumo do que é necessário. Quanto mais é preciso armar, caçar, prender e matar?
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Sara Oliveira

Sara Oliveira é repórter há 10 anos, sendo seis deles no O Povo. Hoje atua como Editora-adjunta do Portal O POVO Onli...

"O Estado deveria proteger os nossos filhos. Isso deveria ser prioridade. Mas estamos sozinhas". A fala foi tirada de uma série de ficção brasileira bem parecida com a vida real no Ceará: crianças e jovens que são mortos vítimas da falha das políticas públicas que deveriam protegê-los. Dever do Estado, da Prefeitura, da Presidência e de todos nós.

As notícias, os números, as cenas e as ações policiais que vimos na última semana são de um cenário de violência extrema, onde crianças, em um lugar construído para ser de lazer - inclusive, sendo eixo central de programas sociais - são mortas, machucadas, ameaçadas, traumatizadas. Uma chacina no bairro Barroso, em Fortaleza, deixou um menino de 10 anos morto e oito crianças feridas (três meninas de 11, 13 e 16 anos e cinco meninos de 8, 9, 10,15 e 16 anos).

Daniel Levy, torcedor do Fortaleza, brincava com amigos na Areninha, vestia camisa 10, estava de short preto e sandália de dedo azul. Na arquibancada, morto, estava com os braços para trás, mostrando a impossibilidade de qualquer reação. Fazia um dos programas mais saudáveis para um menino da sua idade. A imagem escancarou mais uma vez o tamanho da vulnerabilidade a qual expomos as crianças. Eu ia dizer as nossas crianças, mas elas não são de todos. Deveriam, mas não são.

No Brasil, a média é de 7 mil crianças e adolescentes mortos de forma violenta por ano, em sua grande maioria, vítimas de guerras entre facções criminosas ou envolvendo a Polícia.

Em 2017, um estudo produzido pelo Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência mostrou que 44% dessas mortes aconteceram em 17 dos 119 bairros da Capital, metade havia morrido a cerca de 500 metros de casa e 70% estavam fora da escola há pelo menos seis meses. A publicação deixou claro o perfil dos que morrem: jovem, negro, pobre e morador da periferia. E quem falou sobre eles foram os pais, mães, tios e avós. Não foram estatísticas.

As ações ostensivas anunciadas após as ocorrências da semana passada, com mais de dois mil novos policiais em atuação, me fazem questionar o rumo do que é necessário. Quanto mais é preciso armar, caçar, prender e matar? Infelizmente, o que o Estado faz quando vê os espaços públicos ameaçados é agir de forma enérgica e ostensiva. O crime está organizado, tem dinheiro e pouca valorização à vida.

Em uma matéria sobre a bebê de nove meses baleada na cabeça em uma praça no bairro Joaquim Távora, dias antes da ocorrência no Barroso, a repórter Jéssika Sisnando relatou casos de meninos que jogavam futebol e foram surpreendidos por uma rajada de tiros, alunos que passaram mal durante tiroteio no entorno de uma escola no Grande Bom Jardim e, no mesmo bairro, ela lembrou ainda que em 2023 duas crianças foram atingidas de raspão também perto de uma escola.

A violência em espaços de lazer e educação é um dos maiores desafios da segurança pública. Conquistados a duras penas, esses locais, quando tomados pelo medo, dificilmente conseguirão ser esporte, cultura, lazer e entretenimento novamente. Ficarão as marcas de sangue, os gritos desesperados da mãe que perdeu o filho, o terror de um ataque armado.

 

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