Ao contrário do que indica o senso comum, o Brasil tem uma história de partidos fortes. No Império, os diversos governos parlamentares se sucediam alternando-se entre os dois partidos dominantes: conservadores e liberais, cujos respectivos epítetos estão indicados no título. Há pouca dúvida quanto à filiação política do Visconde de Itaboraí, prócer icônico do Partido Conservador. Feita a República, ganharam força os diversos partidos Republicanos Regionais, especialmente o PRP (Partido Republicano Paulista) e o PRM (Partido Republicano Mineiro), que abrigavam os presidentes ao longo do período conhecido como República Velha.
Ultrapassado o hiato do Estado Novo, sobreveio a redemocratização com o estabelecimento de seus tradicionais partidos: UDN e PSD, ao qual se ligam emblemáticas figuras de nossa vida pública, como o Brigadeiro Eduardo Gomes e o Presidente Juscelino Kubitscheck, respectivamente.
Mesmo no regime militar, tivemos Arena e MDB como agremiações da situação e da oposição aos governos de exceção. Com a Nova República e a Constituição de 1988, paradoxalmente, o quadro partidário iniciou um processo de desestabilização e de degradação contínuos.
Um candidato a prefeito de São Paulo recentemente relatou, com alguma jactância, ter-se filiado a seu 11o partido político. Por este específico exemplo mede-se o descalabro a que chegou o personalismo.
Os incontáveis e infindáveis partidos são meros instrumentos de tomada do poder pelos seus filiados de ocasião, amalgamados unicamente por interesses pessoais momentâneos. A política brasileira faz-se, assim, apesar dos partidos e não através deles. A própria legislação eleitoral criou um período de graça - adequadamente denominado janela partidária - durante o qual se permite aos parlamentares a troca de partido sem punições e sem justificativa. Os períodos que antecedem os prazos limite de filiação partidária, igualmente, caracterizam-se por intensa movimentação de candidatos que mudam sem pudor nem coerência de uma a outra entidade partidária ao sabor da conveniência eleitoral imediata.
Os eleitores, por sua vez, rechaçam e rejeitam os partidos tradicionais, devotando-lhes ódio e desprezo e incentivando os políticos à transmudação incessante de afiliação partidária. Soma-se a isso uma pitada de aversão à política tradicional e tem-se o quadro de democracia meramente personalista que nos caracteriza atualmente. Talvez seja essa a gênese do messianismo que tem caracterizado nossas escolhas eleitorais e da paixão cega que embota prosélitos de líderes vazios de propostas sólidas e coerentes. O Brasil se divide entre seguidores de pessoas e não de ideias e projetos.
Por mais difícil que seja, é preciso reconhecer: não há democracia sem partidos fortes. É preciso voltar a nossas origens e resgatar instituições políticas que tenham legitimidade, plataforma e programa, de forma que saibamos claramente quem são os saquaremas e quem são os luzias.