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Regina Ribeiro: Por que Pablo Marçal desestabiliza tanto
Opinião

Regina Ribeiro: Por que Pablo Marçal desestabiliza tanto

João Dória na frente de um Pablo Marçal se assemelha ao personagem Riquinho, só que no estágio do Maternal I. O tipo Bolsonaro passou da 5ª para a 6ª ainda mais birrento. Marçal, não. Ele é senhor da Era Algorítmica, da desrazão individual e coletiva
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Regina Ribeiro

Editora do O POVO Mais (OP+). É jornalista, com mestrado em Literatura Comparada (UFC). No jornalismo do O POVO, atuo...

Quando eu leio - e ultimamente tenho lido bastante - textos sobre o candidato à prefeitura de SP, Pablo Marçal, eu me lembro de uma conversa que tive com a escritora Veronica Stigger quando João Dória era candidato ao governo paulista. Verônica esteve na Capital para um encontro literário na Caixa Cultural. Aliás, a primeira vez que a escritora veio a Fortaleza foi a convite do O POVO para o lançamento de "Os Anões", na Livraria Cultura. Aquele era outro mundo.

Antes de ser escritora considerada um dos melhores nomes da literatura e da crítica de arte contemporâneas, a autora de "Sul", e de "Maria" - onde narra a trajetória da escultora Maria Martins -, Verônica trabalhou como jornalista em Porto Alegre. Seguiu para São Paulo com o marido, também gaúcho, também jornalista e crítico de arte, Eduardo Sterzi, que escrevia para a revista "Bravo", cuja última edição está na minha estante. Porque ela - a revista - também é ícone de um mundo que não mais existe.

A conversa se deu no camarim, enquanto aguardávamos o início da mesa que mediaria com a Verônica e a escritora Luisa Geisler, de "Espaços Abandonados" e a política foi nosso assunto principal. João Dória era candidato ao governo de SP e Verônica falou algo sobre o "fim da política". Ela dizia que alguma coisa estava acontecendo na capital paulista, uma espécie de desencanto e que as pessoas estavam buscando experiências outras vindas de "tipos" com João Dória, um empresário, comunicador, identificado com um lado de SP que ignorava completamente como viviam os milhões do outro lado paulista.

Verônica me falava: "Eu moro nas proximidades do centro e de lá eu vejo uma SP que João Dória desconhece por completo", afirmava a escritora. Nesse mesmo ano, Bolsonaro também era candidato, mas ninguém dava bolas pra ele. A situação ainda não havia ficado severamente estranha.

Passado esse tempo, João Dória na frente de um Pablo Marçal se assemelha ao personagem Riquinho, só que no estágio do Maternal I. O tipo Bolsonaro passou da 5ª para a 6ª ainda mais birrento. Marçal, não. Ele é senhor da Era Algorítmica, da desrazão individual e coletiva. Ficamos perdidos diante de gente desse tipo, porque simplesmente não temos as ferramentas necessárias para encará-lo.

Tenho lido alguns textos de pessoas que falam sobre Pablo Marçal baseadas em crimes que ele teria cometido, nos assessores ligados ao crime organizado, na forma como ele maneja as redes sociais e se esquecem que estamos num outro mundo, onde a vida real de uma pessoa é descolada da forma como ela forja personagens instantâneos nas redes gerando identificação imediata, que precisa de sustentação contínua.

Estamos num mundo inédito, batalhando com modos de pensar e agir que não têm mais nenhum sentido para milhões de pessoas que desconhecem completamente nossa lógica de compreensão da realidade. O que chega para uma larga maioria de pessoas são memes, posts, nacos de um real deformado. Esse patchwork tem impacto mental gigante e favorável a homens como Pablo Marçal. O que desnorteia qualquer um é querer entendê-lo a partir de um mundo que não mais existe.

Ficarei ausente por um tempo. Um abraço.

 

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