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Rodrigo Chaves de Mello: O paroquialismo e as eleições em Sobral
Opinião

Rodrigo Chaves de Mello: O paroquialismo e as eleições em Sobral

Em um cenário no qual a política nacional se encontra sitiada pela polarização, o refúgio no localismo é, por certo, uma cartada arriscada. Mas, por força da conjuntura, a oposição em Sobral parece não ter, até o momento, alternativa melhor
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Rodrigo Chaves de Mello. Cientista Social, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú e pesquisador do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso). (Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Rodrigo Chaves de Mello. Cientista Social, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú e pesquisador do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso).

No último dia 29, na inauguração do comitê de campanha da candidata Izolda Cela (PSB), coube a Jade Romero (MDB), vice-governadora do Estado, disparar a seta: "Aqui em Sobral, o projeto de Bolsonaro não vai se criar!".

Não foram palavras ao léu. Ao mencionar o ex-presidente, a disputa política local foi alinhada aos embates nacionais, marcados pela polarização. A vice-governadora empurrou a candidatura adversária, encabeçada por Oscar Rodrigues (União), ao córner do bolsonarismo. É o sonho de qualquer incumbente ao executivo municipal da cidade.

Como ilustra a campanha paulistana, nestas eleições o espólio bolsonarista tem sido disputado com unhas e dentes. Mas não em Sobral. Dados das últimas eleições limitam a 30% o teto eleitoral do ex-presidente. Ainda que seja um volume expressivo de votos, e que se bem explorado pode fazer diferença, é, por óbvio, insuficiente para a disputa majoritária.

Se percebeu o golpe, Oscar Rodrigues fez questão de não acusá-lo. Seu cálculo parece ser outro: adversário histórico dos Ferreira Gomes e único candidato da oposição, o eleitor bolsonarista provavelmente já está em suas bases. Se assim for, o teto de Bolsonaro é seu piso de partida, estando seu desafio na atração de um eleitor mais interessado nas questões comezinhas do dia a dia do que nos grandes embates nacionais. Colocando em segundo plano as políticas públicas que demandam articulações maiores e financiamentos estaduais e nacionais, sua candidatura tem reforçado as promessas - lavradas nos cartórios da cidade - de não demitir os trabalhadores não concursados da prefeitura, de acabar com a taxa do lixo e de findar com as multas no trânsito, que espantariam os consumidores do comércio de rua.

Em um cenário no qual a política nacional se encontra sitiada pela polarização, o refúgio no localismo é, por certo, uma cartada arriscada. Mas, por força da conjuntura, a oposição parece não ter, até o momento, alternativa melhor. Apostando em uma espécie de populismo da vida cotidiana, o paroquialismo, tão desprezado em outras praças, parece alimentar os sonhos dos que buscam a alternância de poder em Sobral.

 

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