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João Pedro Almeida Bezerra: O lugar do sofrer e a juventude
Opinião

João Pedro Almeida Bezerra: O lugar do sofrer e a juventude

Aliando-se ao discurso psiquiátrico, que é uma máquina de produzir subjetividades, é tarefa fácil e cômoda darmos um nome ao que estamos sentindo, a ponto de termos como "ansiedade" ou "depressão" serem entendidos hoje como suficientes para transmitir alguma informação sobre toda a dimensão do nosso sofrimento
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João Pedro Almeida Bezerra

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Não é difícil perceber que a prática de escutar o próprio sofrimento está cada vez mais perdendo espaço, em especial na juventude. Aliando-se ao discurso psiquiátrico, que é uma máquina de produzir subjetividades, é tarefa fácil e cômoda darmos um nome ao que estamos sentindo, a ponto de termos como "ansiedade" ou "depressão" serem entendidos hoje como suficientes para transmitir alguma informação sobre toda a dimensão do nosso sofrimento. Não precisamos mais sentir, chorar, criar um certo desespero e angústia para lidar com as dores da vida. Não. Traduzir tudo isso como sendo categorias da nosografia psiquiátrica virou vocabulário comum, permitindo uma comunicação.

Na mesma linha, um "déficit de atenção", um "hiperfoco" ou uma "hiperatividade", designações oficializadas e muito utilizadas pela minha geração, tomam conta de tudo o que é angústia vivida por um sujeito angustiado. Afinal, soa muito mais interessante, do ponto de vista pessoal e também social, usar terminologias "científicas" desse tipo do que olhar para si e tecer do zero uma fala singular sobre o que acontece conosco.

A nomeação da experiência do sofrimento é somente um pontapé para o início de um novo posicionamento de vida - mas isso é muita coisa! Se ficarmos surdos ao que tentamos falar a nós mesmos, só podemos nos perder diante do que nos chama ao questionamento e à mudança de nossa posição vital e subjetiva.

Termos genéricos como os diagnósticos da psiquiatria não dizem absolutamente nada a respeito do que acontece no momento em que alguém perde um parente próximo; é demitido; perde uma grande oportunidade na vida pessoal ou se vê diante de questões fundamentais da condição humana, como a morte, a doença, a solidão, a paixão, a violência, o sexo etc. E são nessas situações específicas, sempre singulares e experienciadas igualmente de forma singular, que perdemos a oportunidade de acessar uma parte essencial do próprio viver, pois sofrer é tão vital quanto respirar. Mas para saber sofrer não há instinto natural: temos que aprender.

 

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