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Marcos José Diniz Silva: As religiões e os problemas sociais
Opinião

Marcos José Diniz Silva: As religiões e os problemas sociais

. É preciso desvincular a abordagem e a solução dos nossos problemas socioeconômicos e políticos da moral exclusivista e fundamentalista das religiões, em prol de uma ética social, cidadã, pluralista e inclusiva
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Marcos José Diniz Silva

Historiador e professor da Uece

É sabido de todos os que conhecem minimamente a História humana, o quanto a vida religiosa tem sido uma marca de todas as sociedades, e que as religiões com suas estruturas organizativas e hierárquicas mantiveram estreitas ligações com o poder político em quase todas as sociedades, legitimando reis, imperadores, governantes, regimes e guerras, sacralizando formas de organização e dominação social como o despotismo, o escravismo, a servidão medieval, até à ordem capitalista atual. Noutro espectro, esses poderes religiosos ortodoxos perseguiram crenças e práticas religiosas populares, dizimando-as ou apoderando-se delas no seu modelo canônico de modo sincrético, assumido ou disfarçado.

Esse introito nos serve para uma reflexão, pois é com frequência que ouvimos ou lemos líderes religiosos cristãos - que muitas vezes ignoram Jesus em seus discursos - a convocarem a sociedade para o avivamento religioso, a conversão geral, a entrega total da nação a Deus, "ao Deus de Israel", como imediata solução dos nossos problemas de violência urbana, narcotráfico, corrupção e, até controle da inflação - um mal, hoje, bem menor que décadas atrás.

Mas, pesquisa do Datafolha, de 2022, revela que 49% dos entrevistados se dizem católicos, 26% evangélicos e 14% sem religião. Assim, ao menos 75% dos brasileiros se declaram cristãos. E a reportagem "Maioria dos presos no Ceará é jovem e evangélica" (O POVO, 10/09/2024), divulga pesquisa acadêmica local em que se constata, dentre outras coisas, que "Mais da metade (50,5%) das 22 mil pessoas que estão no sistema penitenciário atualmente, no Ceará, é de jovens até 29 anos e 43% se dizem evangélicos."

É um dado significativo, porque abrange a juventude, grupo mais acusado de ser irreligioso ou ateu. É uma demonstração de que não é a "falta de Deus" ou aderência religiosa que promove a miséria, a desigualdade social, que leva as pessoas ao crime ou à prática de corrupção política. Nesse último caso, basta ver quantos políticos são ateus. É preciso, pois, desvincular a abordagem e a solução dos nossos problemas socioeconômicos e políticos da moral exclusivista e fundamentalista das religiões, em prol de uma ética social, cidadã, pluralista e inclusiva.

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