Em meio ao trânsito caótico de Fortaleza, uma breve olhada pela janela pode mostrar que há estresse muito maior que o dos engarrafamentos. Do outro lado dos vidros está a população em situação de rua, que diariamente abre as portas de suas “casas” para a passagem de milhares de veículos.
Essa é uma cena comum nas ruas de Fortaleza. Para quem busca um abrigo, os viadutos viraram o teto que protege dos raios solares e das fortes chuvas que têm assolado a cidade.
Em muitos pontos não são apenas uma ou duas pessoas vivendo nessa situação, mas sim agrupamentos com dezenas de famílias. Exemplo de locais como esse é o viaduto da avenida Borges de Melo, no cruzamento com a BR-116, bairro Aerolândia, onde já há toda uma comunidade formada debaixo das alças.
As causas para a chegada até ali são bastante pessoais, como desavenças familiares, perdas de emprego, vícios, entre outros. Entretanto, o convívio no local é coletivo e busca conquistar o máximo de dignidade ainda possível, com improvisação de sistemas de água e eletricidade.
A renda vem do trabalho com reciclagem, labor de muitos ali residentes. Durante a visita do O POVO, muitos dos barracos levantados estavam vazios, já que a maioria já havia saído para a labuta antes das 8 horas da manhã.
Por dia, conseguem entre R$ 20 e R$ 40, que usam para custear todas as refeições do dia. Roupas e itens de higiene vêm de doações que recebem, já que o dinheiro da remuneração do trabalho é insuficiente para esses custos.
“Só dá para comer. Não dá para comprar uma roupa, não dá para comprar um chinelo, nada. Só dá para comprar uma alimentaçãozinha e sobreviver. Eu muitas vezes acho uma roupa na rua e me visto”, conta Grasiele Cunha, 39, que há três meses mora debaixo do viaduto.
Os barracos ali montados abrigam muitas famílias, entre elas, a de Daniel Viana, 39, e Antônia Hilda, 30, que vivem no local com os filhos pequenos, Micael, 2, e Miqueias, 5. Por desavenças familiares, há cerca de dois anos o casal saiu da casa de parentes e foi morar no viaduto, onde construíram uma casa de madeira e se protegem do relento sob o teto improvisado.
Com duas crianças, a vida nas ruas é mais difícil. Fraldas, leite e material escolar são caros e fazem com que a família dependa muito de doações, já que os R$ 50 que Daniel ganha trabalhando com descarregamento de caminhões duram apenas dois dias.
O pouco dinheiro não é a principal preocupação do casal. Questionados sobre o que mais desejam melhorar em suas vidas, a casa é a resposta óbvia de quem mora na rua, mas ainda sim, impactante.
“Queria dar a condição para eles de viver em uma casa. Só para deixar minha mulher e meus filhos mais seguros. Sair para trabalhar e saber que eles vão ficar seguros. Porque hoje no trabalho eu não sei como eles estão, aqui no barraco”, conta Daniel.
Um pouco mais distante dali, no viaduto que sobrepõe as avenidas Almirante Saboia e Farias Brito, no bairro Varjota, a situação é semelhante. Os vários barracos sequenciados na calçada de acesso ao logradouro abrigam pessoas com problemas financeiros e familiares, entre vários outros, que se viram como podem para sobreviver.
Aqui, a reciclagem também é fonte de renda, muito utilizada para alimentação. Diferente do viaduto da Borges de Melo, na Almirante Saboia não há eletricidade e a água é doada por comerciantes da região.
A rotina é dolorida para quem vive ali. As tendas erguidas pelos moradores protegem dos raios solares na medida do possível, mas tornam a vida em um breu durante a noite. Quando chove, a força das águas avança sobre a calçada e faz refém quem vive com pedaços de pano e madeira improvisados.
O desejo é sair dali. O arrependimento por escolhas que fez no passado ou situações que lhes levaram à vida nas ruas é companheiro fiel. Para os que ainda têm outra possibilidade, a busca é contínua para reconquistar um lar, como é o caso de Danielle Patrícia, 34, que há cinco anos vive nas ruas.
Apesar de morar no viaduto, ela conta que nunca perdeu o contato com a família, especialmente com os pais. Após o falecimento recente dos dois, a herança tem sido dividida judicialmente entre os filhos, e é a partir dessa decisão de onde ela pretende recomeçar a vida.
“Estou na esperança pela justiça de Deus e a da Terra fazer alguma coisa. Sempre ia nos meus pais, mas depois que eles morreram nunca mais fui lá. Minha irmã vem deixar os documentos aqui para mim. Logo logo, assim que o juiz assinar eu vou embora”, conta Danielle.
Assim que O POVO chegou ao viaduto da Borges de Melo, quase ninguém estava do lado de fora dos barracos. Apenas o esposo de Grasiele, José André, 47, fazia o almoço da família na porta da residência com alguns mantimentos que tinham guardados.
Isso mudou quando um carro chegou ao local trazendo cestas básicas e fardos de água. Em poucos instantes, todos os que estavam no local saíram das casas para receber os presentes, e fizeram questão de agradecer aos benfeitores que ali chegavam.
Para muitos, aqueles sacos de arroz, feijão e algumas garrafas d’água são a diferença entre conseguir dormir e conviver com a fome, sem saber quando ou onde terão o que comer e beber.
Para a família de Hilda e Daniel, as doações são a principal fonte de sobrevivência. Quando o dinheiro que ele ganha na segunda acaba na terça ou quarta-feira, todo o resto da semana é suprido pelo o que ganham em doações, para eles e para os filhos.
Esses atos de caridade vêm de pessoas compadecidas da situação em que essas pessoas vivem, de quem cumpre votos com Deus, mas principalmente, de associações solidárias, movimentos sociais e religiosos, como o movimento Shalom Amigo dos Pobres.
O projeto surgiu durante a pandemia do novo Coronavírus, como uma expansão dos serviços prestados pelo Centro de Convivência Casa São Francisco, administrado pela Comunidade Católica Shalom, que desde o ano 2000 trabalha junto à população em situação de rua.
O projeto começou disponibilizando apenas almoço e jantar para um grupo de 15 homens, e hoje, atende 100 pessoas com alimentação, local para banho, itens de higiene pessoal, assistência jurídica e de saúde.
De acordo com o coordenador da iniciativa, Thacio Romano, o aumento na quantidade de pessoas atendidas se deu principalmente durante a pandemia de Covid-19, quando passaram a ver cada vez mais pessoas vivendo em vulnerabilidade social nas praças, viadutos e demais logradouros da cidade.
O quadro clínico cada vez mais alarmante dessas pessoas também foi um dos motivos que levaram à ampliação do projeto, já que muitos entre os atendidos chegavam até a Casa São Francisco em condições de baixa nutrição e com outros problemas de saúde.
“Muitos realmente chegam com necessidade de uma atenção maior na saúde, casos, não de desnutrição, mas uma insegurança alimentar, porque às vezes aquele alimento [que consomem nas ruas] não é tão balanceado, de tanta qualidade”, conta Romano.
Atualmente, as refeições servidas no local são conquistadas através de parceria com o projeto Ceará Sem Fome, do Governo do Estado. Os itens de higiene pessoal, medicamentos e outros insumos fundamentais para a manutenção do auxílio prestado ao público atendido são angariados através de doações feitas por empresários ou pessoas físicas.
O local também trabalha a retirada dessas pessoas das ruas. Segundo Thacio, uma das obrigatoriedades estabelecidas pelo local para que os atendidos tenham acesso ao banho, comida e outros benefícios, é a participação nas ações de reinserção na vida social e no mercado de trabalho.
“Eu não posso apenas dar uma comida àquele homem que está ali necessitando. É justo, ele está com fome, eu tenho que dar comida para ele. Mas também tenho que me preocupar para além. E amanhã? E depois? Aquele homem vai ficar todo dia vindo pegar só a comida? O diferencial é esse, se preocupar com o pós. Dar a comida, mas fazer alguma coisa para que ele ganhe a sua independência”, pontua.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), obtidos através do Cadastro Único, Fortaleza tem atualmente 9.641 pessoas vivendo em situação de rua. Por estarem em vulnerabilidade social, esses indivíduos se tornam ainda mais suscetíveis a problemas de saúde e seguridade social, e por isso, precisam de um cuidado ainda maior do poder público.
Um dos primeiros quesitos a serem afetados é a saúde. Sem dinheiro para planos particulares e acesso dificultado a hospitais pela falta de documentos e eventuais dificuldades de locomoção por longas distâncias, o público tende a ser assistido nos próprios locais onde vivem.
Na Capital, esse serviço é realizado pelas equipes do programa “Consultório na Rua”, da Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza (SMS), que percorrem as 12 regionais da cidade, levando os serviços prestados nos postos de saúde.
Ao todo, seis equipes circulam a cidade em equipes que contam com um médico, um enfermeiro, dois técnicos de enfermagem, um psicólogo, um assistente social, um agente social e dois motoristas. Entre os serviços prestados estão a emissão de prescrições médicas, consultas, vacinação e distribuição de preservativos.
“Dentro desse serviços prestados a gente pode destacar o atendimento médico, de enfermagem, orientações sobre higiene pessoal e prevenção de doenças, entrega de preservativos, testes de gravidez, distribuição de absorventes para pessoas que menstruam na faixa etária de dez a 49 anos…”, explica a assessora técnica da atenção primária e psicossocial de Fortaleza, Janaína Rocha.
Além dos cuidados preventivos, o trabalho das equipes do consultório nas ruas também se estende à resposta de patologias que já atingem a população em situação de rua. Segundo Janaína, essa é uma população muito suscetível a infecções como tuberculose, hepatites, entre outras, e por isso, também é realizada uma testagem rápida para sífilis, HIV, hepatites B e C, entre outras.
Com muitas famílias formadas nos aglomerados embaixo de viadutos e nas ruas, o cuidado com as mulheres grávidas também é uma das alçadas do Consultório na Rua. Com presença de médico e enfermeiro, as equipes prestam atendimento inicial para as gestantes e também podem realizar a recomendação de procura a um hospital, para os exames mais detalhados do pré-natal.
A grande dificuldade desse e de outros casos no atendimento a pessoas em situação de rua é o caráter andarilho desse público, ou seja, o fato de estarem constantemente em movimento, dificultando com que as equipes acompanhem a evolução dos quadros clínicos.
“As vezes isso se torna um pouco mais desafiador por causa dessa itinerância, de as pessoas não ficarem fixas por muito tempo no mesmo território. Quando a gente fala em pessoas em situação de rua que ficam um tempo maior, como o próprio viaduto, as equipes conseguem acompanhar de forma mais completa e específica.
Para quem permanece nesses locais, o atendimento nos logradouros públicos é essencial para a higiene pessoal e acompanhamento de quadros clínicos. Às vezes morando longe das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou com receio de ir até um posto devido à condição em que vivem, as equipes itinerantes são a principal forma de cuidado com a saúde.
“Sempre vem aqui uma cabine. Dão pasta de dente, escova, fazem cadastro para a gente ir para o posto receber remédio… a gente vive na rua, mas nossa saúde é boa graças a Deus. Às vezes alguém passa quatro ou cinco dias com problema intestinal ou outra coisa, mas é raro acontecer isso”, relata José André.
Dados do Censo 2021 Qualitest, coordenado pela Secretaria Municipal do Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SDHDS) indicam que Fortaleza contava à época com 2.653 pessoas em situação de rua. Em quatro anos, o número de indivíduos nessa condição na Capital mais que triplicou, conforme evidenciam os dados do Cadastro Único.
Esse crescimento tão acelerado fez com que as políticas públicas para habitação ficassem defasadas. Em 2021, 332 pessoas estavam sob acolhimento institucional na cidade. Já em 2025, o número de beneficiados pelo programa de locação habitacional na Prefeitura, onde é oferecido o valor de R$ 600 para os cadastrados aluguem um lugar para morar na cidade, chega a apenas 340.
A saída que tem sido utilizada é a ramificação dos serviços, que além de habitação, fornecem auxílio em centros de convivência e referência para esse público, locais para alimentação diária, espaços para higiene, entre outros.
O principal desses serviços é o Centro de Referência para População em Situação de Rua (Centro Pop), que propicia o acesso à orientação jurídica, psicológica, socioassistencial, alimentação, ações educativas, entre outros. No ano passado, 3.489 pessoas buscaram atendimentos nesses espaços, número que, entretanto, corresponde a apenas 36% do total de abrigados nas ruas de Fortaleza.
Esse nível aquém de atendimentos pode ser relacionado com a centralização das medidas de seguridade social na Capital. Com dois Centros POP, localizados em um raio de pouco mais de 2 quilômetros (km), entre os bairros Damas e José Bonifácio, os equipamentos terminam por atender um público mais próximo ao Centro da cidade.
Para quem vive em áreas afastadas desses bairros, o atendimento ocorre de forma similar ao visto na área da saúde. De acordo com a SDHDS, o município conta com equipes volantes de abordagem social que levam os serviços dos Centros POP para o público da periferia.
“São essas equipes que prestam atendimento nessa perspectiva de articulação aos serviços de proteção social. Quando falo de proteção social, falo de acesso à saúde, à habitação, à renda, trabalho, documentação civil…”, explica a secretária executiva da pasta, Cynthia Studart.
A urgência de incremento dessas políticas foi reconhecida publicamente pela Prefeitura de Fortaleza já na atual gestão. Em entrevista à rádio O POVO CBN em fevereiro deste ano, o prefeito Evandro Leitão afirmou que ainda no mês dois, seria iniciada uma “profunda intervenção” junto à população em situação de rua.
O POVO questionou a SDHDS sobre quais ações foram realizadas nesta “profunda intervenção” da Prefeitura. Em resposta, a pasta afirmou que essa medida anunciada pelo prefeito consiste no diagnóstico da população de rua da Capital.
De caráter imediato, foi feita a recomposição de equipes para os Centros POP e demais equipamentos de Assistência Social, segundo informou a pasta, em nota. Também teve início em fevereiro o projeto POP Rua em Ação, em parceria com a Secretaria da Proteção Social (SPS), que reúne serviços municipais e estaduais voltados à seguridade social em visitas quinzenais aos bairros da Terra do Sol.
A lista completa de serviços da Prefeitura para este público pode ser consultada através do canal de desenvolvimento social do município.
Questionada sobre a defasagem dos serviços públicos em relação ao crescimento da população nas ruas, a SDHDS afirmou que elabora um programa para aumento das vagas de Locação Habitacional e construção de Novos Centros POP. Entretanto, a pasta também afirmou que isso deverá ocorrer apenas a partir de 2026, devido à contenção de gastos adotada pela atual gestão.
“A gente está construindo um programa para a superação da situação de rua, um programa intersetorial, com várias ações de várias secretarias. Estamos no momento de elaboração, já que o PPA dessa nova gestão vai ser de 2026 a 2029. Nesse ano de 2025 estamos trabalhando com o orçamento da gestão passada e recursos já destinados pelo PPA vigente”, conclui Studart.
A importância das doações para quem vive nas ruas
Assim que O POVO chegou ao viaduto da Borges de Melo, quase ninguém estava do lado de fora dos barracos. Apenas o esposo de Grasiele, José André, 47, fazia o almoço da família com alguns mantimentos que tinham guardados.
Isso mudou quando um carro chegou ao local trazendo cestas básicas e fardos de água. Em poucos instantes, todos os que estavam no local foram receber as doações, e fizeram questão de agradecer aos benfeitores que ali chegavam.
Para muitos, aqueles sacos de arroz, feijão e algumas garrafas d'água são a possibilidade de conseguir dormir e conviver com a fome, sem saber quando ou onde terão o que comer e beber.
Para a família de Hilda e Daniel, as doações são a principal fonte de sobrevivência. Quando o dinheiro que ele ganha na segunda acaba na terça ou quarta-feira, todo o resto da semana é suprido pelo o que ganham em doações, para eles e para os filhos.
Esses atos de caridade vêm de pessoas compadecidas da situação, de quem cumpre votos com Deus, mas principalmente, de associações solidárias, movimentos sociais e religiosos, como o movimento Shalom Amigo dos Pobres.
De acordo com o coordenador da iniciativa, Thacio Romano, o aumento na quantidade de pessoas atendidas se deu principalmente durante a pandemia de Covid-19. Hoje atende 100 pessoas com alimentação, local para banho, itens de higiene pessoal, assistência jurídica e de saúde
"Muitos realmente chegam com necessidade de uma atenção maior na saúde, casos, não de desnutrição, mas uma insegurança alimentar, porque às vezes aquele alimento [que consomem nas ruas] não é tão balanceado, de tanta qualidade", conta Romano.
Atualmente, as refeições servidas são conquistadas através de parceria com o projeto Ceará Sem Fome, do Governo do Estado. Os itens de higiene pessoal, medicamentos e outros insumos fundamentais para a manutenção do auxílio prestado ao público atendido são angariados através de doações feitas por empresários ou pessoas físicas.
"Eu não posso apenas dar uma comida àquele homem que está ali necessitando. O diferencial é esse, se preocupar com o pós. Dar a comida, mas fazer alguma coisa para que ele ganhe a sua independência", pontua.
Desocupação de viaduto ocorre em meio a crescente de população em situação de rua
Em 29 de março recente a Prefeitura de Fortaleza realizou a desocupação do viaduto da Via Expressa com a Avenida Dom Luís, no bairro Papicu. Iniciativa, feita por órgãos como a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) e a Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS), retirou do local 21 moradias irregulares.
Barracos foram interditados pela Defesa Civil de Fortaleza por riscos à integridade física da população em situação de rua e à estrutura do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Segundo Munícipio, não houve resistência à desocupação durante a iniciativa, que começou um mês atrás com diálogos com os cidadãos sob vulnerabilidade.
Indagada pelo O POVO acerca da ação, a SDHDS informou que "há um trabalho intersetorial envolvendo vários órgãos para o cadastramento e acolhimento" dessa população, destacando que o trabalho iniciou com entrevistas aos educadores sociais que identificaram e escutaram as principais demandas.
"Após os atendimentos socioassistenciais e médicos, foi disponibilizado ao grupo a emissão de documentos, inscrição ou atualização no Cadastro Único para concessão do Programa Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), a inscrição no Programa de Locação Social, encaminhamentos para atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), abrigamento em comunidades terapêuticas e acompanhamento religioso com padres ou pastores. Ainda na fase de cadastro e entrevistas, alguns moradores optaram por retomar os vínculos familiares", explica órgão em nota.
O POVO pediu mais detalhes sobre a iniciativa para a pasta, como a quantidade de pessoas que foram retiradas do local, se havia crianças no espaço e se outras intervenções do tipo seriam realizadas na Cidade. No entanto, órgão não deu retorno acerca dessas questões.
Desocupação ocorre em meio ao crescimento da população que vive em situação de rua em Fortaleza. Dados do Censo 2021 Qualitest, coordenado pela Secretaria Municipal do Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SDHDS), indicam que a Capital contava à época com 2.653 pessoas em situação de rua. Em quatro anos, o número de indivíduos nessa condição no Município mais que triplicou, conforme evidenciam os dados do Cadastro Único.
O crescimento tão acelerado da população em situação de rua fez com que as políticas públicas para habitação na Cidade ficassem defasadas. Em 2021, 332 pessoas estavam sob acolhimento institucional em Fortaleza. Já em 2025, o número de beneficiados pelo programa de locação habitacional na Prefeitura, onde é oferecido o valor de R$ 600 para o aluguel de moradia, chega a apenas 340.
A saída que tem sido utilizada é a ramificação dos serviços, que além de habitação, fornecem auxílio em centros de convivência e referência para esse público, locais para alimentação diária, espaços para higiene, entre outros.
O principal desses serviços é o Centro de Referência para População em Situação de Rua (Centro Pop), que propicia o acesso à orientação jurídica, psicológica, socioassistencial, alimentação, ações educativas, entre outros. No ano passado, 3.489 pessoas buscaram atendimentos nesses espaços, número que, entretanto, corresponde a apenas 36% do total de abrigados nas ruas de Fortaleza.
Esse nível aquém de atendimentos pode ser relacionado com a centralização das medidas de seguridade social na Capital. Com dois Centros POP, localizados em um raio de pouco mais de 2 quilômetros (km), entre os bairros Damas e José Bonifácio, os equipamentos terminam por atender um público mais próximo ao Centro da cidade.
Para quem vive em áreas afastadas desses bairros, o atendimento ocorre de forma similar ao visto na área da saúde. De acordo com a SDHDS, o município conta com equipes volantes de abordagem social que levam os serviços dos Centros POP para o público da periferia.
“São essas equipes que prestam atendimento nessa perspectiva de articulação aos serviços de proteção social. Quando falo de proteção social, falo de acesso à saúde, à habitação, à renda, trabalho, documentação civil…”, explica a secretária executiva da pasta, Cynthia Studart.
A urgência de incremento dessas políticas foi reconhecida publicamente pela Prefeitura de Fortaleza já na atual gestão. Em entrevista à rádio O POVO CBN em fevereiro deste ano, o prefeito Evandro Leitão afirmou que ainda no mês dois, seria iniciada uma “profunda intervenção” junto à população em situação de rua.
O POVO questionou a SDHDS sobre quais ações foram realizadas nesta “profunda intervenção” da Prefeitura. Em resposta, a pasta afirmou que essa medida anunciada pelo prefeito consiste no diagnóstico da população de rua da Capital.
De caráter imediato, foi feita a recomposição de equipes para os Centros POP e demais equipamentos de Assistência Social, segundo informou a pasta, em nota. Também teve início em fevereiro o projeto POP Rua em Ação, em parceria com a Secretaria da Proteção Social (SPS), que reúne serviços municipais e estaduais voltados à seguridade social em visitas quinzenais aos bairros da Terra do Sol.
A lista completa de serviços da Prefeitura para este público pode ser consultada através do canal de desenvolvimento social do município.
Questionada sobre a defasagem dos serviços públicos em relação ao crescimento da população nas ruas, a SDHDS afirmou que elabora um programa para aumento das vagas de Locação Habitacional e construção de Novos Centros POP. Entretanto, a pasta também afirmou que isso deverá ocorrer apenas a partir de 2026, devido à contenção de gastos adotada pela atual gestão.
“A gente está construindo um programa para a superação da situação de rua, um programa intersetorial, com várias ações de várias secretarias. Estamos no momento de elaboração, já que o PPA dessa nova gestão vai ser de 2026 a 2029. Nesse ano de 2025 estamos trabalhando com o orçamento da gestão passada e recursos já destinados pelo PPA vigente”, conclui Studart.
Ações itinerantes de saúde têm papel fundamental
Sem dinheiro para planos particulares e acesso dificultado a hospitais pela falta de documentos e eventuais dificuldades de locomoção por longas distâncias, as pessoas em situação de rua precisam ser assistidas nos locais onde vivem.
Na Capital, esse serviço é realizado pelas seis equipes do programa "Consultório na Rua", da Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza (SMS), que percorrem as 12 regionais da Cidade, levando os serviços prestados nos postos de saúde.
Cada equipe conta com um médico, um enfermeiro, dois técnicos de enfermagem, um psicólogo, um assistente social, um agente social e dois motoristas. Entre os serviços prestados estão a emissão de prescrições médicas, consultas, vacinação e distribuição de preservativos.
"Dentro desses serviços prestados, a gente pode destacar o atendimento médico, de enfermagem, orientações sobre higiene pessoal e prevenção de doenças, entrega de preservativos, testes de gravidez, distribuição de absorventes para pessoas que menstruam na faixa etária de dez a 49 anos…", explica a assessora técnica da atenção primária e psicossocial de Fortaleza, Janaína Rocha.
Além dos cuidados preventivos, o trabalho das equipes do consultório nas ruas também se estende à resposta de patologias que já atingem a população em situação de rua. Segundo Janaína, essa é uma população muito suscetível a infecções como tuberculose, hepatites, entre outras, e por isso, também é realizada uma testagem rápida para sífilis, HIV, hepatites B e C, entre outras.
Com muitas famílias formadas nos aglomerados embaixo de viadutos e nas ruas, o cuidado com as mulheres grávidas também é uma das alçadas do Consultório na Rua.
A grande dificuldade desse e de outros casos no atendimento a pessoas em situação de rua é o caráter andarilho desse público, ou seja, o fato de estarem constantemente em movimento, dificultando com que as equipes acompanhem a evolução dos quadros clínicos.
"Sempre vem aqui uma cabine. Dão pasta de dente, escova, fazem cadastro para a gente ir para o posto receber remédio… a gente vive na rua, mas nossa saúde é boa graças a Deus. Às vezes alguém passa quatro ou cinco dias com problema intestinal ou outra coisa, mas é raro acontecer isso", relata José André.