Se você já passou pela rua dos Tabajaras, pela Vila das Artes, pela Barraca Foi Sol ou pelos Cucas do Mondubim, Jangurussu, José Walter, você certamente já encontrou as obras da artista visual Dinha Ribeiro.
Por meio do grafites, a pernambucana que mora em Fortaleza há dez anos procura transmitir a ancestralidade e representação negra pelos muros da Capital. Em expressões que evidenciam e denunciam principalmente as desigualdades sociais, de raça e gênero.
E assim, atuando num segmento do movimento do hip hop conduzido geralmente por homens, Dinha se destaca, fazendo com que narrativas historicamente sub-representadas possam se ver e se reconhecer por meio do grafite.
A paixão pelo desenho se deu ainda na infância. A avó dela, Dona Marleide, é artesã e foi a maior responsável pelo descobrimento da arte. Os primeiros traços e rabiscos foram feitos em tecidos e panos de pratos.
"Como ela via um grande potencial em minha pessoa, pedia para que eu aumentasse os desenhos que ela gostaria de repassar para os tecidos. Aí, desde então, não parei de rabiscar, acabou se tornando um hobby quando criança e adolescente", conta a artista.
O descobrimento do grafite aconteceu entre 2007 e 2008, ainda na cidade de Recife, e com ele também surgiu o hip hop em sua vida. Foi quando passou a se engajar nas causas sociais e lutar cada vez mais contra o racismo. Isso serviu como fonte para seu principal motor criativo: pensar como a mulher preta é representada e vista.
"Foi através da representação de mulheres que encontrei uma forma de retratar meu sentimento e o que eu gostaria de passar com a minha forma de fazer arte", declara, acrescentando que suas principais inspirações são as artistas Gugie Cavalcante, Crioula e Pri Barbosa.
Para Dinha Ribeiro, as mulheres negras grafiteiras desempenham um papel essencial na diversificação e no enriquecimento da arte urbana, mas ainda assim o preconceito acontece, fato que já chegou a atingi-la diretamente.
"Isso já me afetou, e sou muito grata que hoje percebo o quanto fui forte a resistir e usar disso para continuar fazendo o que eu faço, consegui superar resistindo. Graças a luta de tantas que vieram antes de nós que hoje podemos ver uma quantidade crescente de mulheres na arte e isso é foda demais", declara.
Dinha também acrescenta que enxerga suas obras como uma "afronta" à sociedade, para seguir lutando contra o racismo e machismo.
"A arte nos possibilita isso de pintar e falar sobre nossas dores, alegrias, aparências que sempre fomos invisibilizadas. Não tem como fugir desse discurso porque a arte está ali e não tem como retroceder, a gente fala e luta com as armas que ela nos proporciona", pontua.
Arte em Fortaleza
Grafitar em muros para expressar suas opiniões artísticas e políticas não começou em Fortaleza. Foi em Recife que Dinha começou a trabalhar com a pintura. Ela explica que seu processo de criação se dá por meio de pesquisas, seja ela histórica ou fotográfica.
"Não busco uma regra para produção, me sinto muito a vontade de fazer e pintar o que eu quero sem nenhuma pressão de conceito. Porém, dependendo do trabalho que irei reproduzir, se ele necessita de uma base de conhecimento através da proposta a ser pintada, eu busco mais aprofundamento do assunto e visões que possam me facilitar e me inspirar a produzir", conta a pernambucana.
Já em Fortaleza, a artista conta que a escolha pelo local em que pinta depende de alguns fatores importantes, como mapeamento prévio, onde os artistas já conseguem visualizar um muro que pode ser pintado e se o local é de propriedade pública ou privada.
"A preferência sempre é pelos muros lisos que não tenham nenhum tipo de textura, esses sempre são os melhores para uma produção de qualidade. Ou pode ser feita de uma forma espontânea onde os artistas saem de casa e no momento que encontram uma parede para pintar", destaca, complementando que já possui 15 paredes assinadas por Fortaleza.
A sua mais recente obra foi pintada no Residencial Alto da Paz, no Cais do Porto, em parceria com o Projeto Parede Viva. Foram praticamente 100 metros quadrados de parede, 36 litros de Verniz e muitas cinzas para realizar a obra em homenagem aos brigadistas da Cidade.
Sua maior realização profissional no momento é a oportunidade que terá em fazer um mural em grande escala em um estado fora do Nordeste, em São Paulo, no concurso de Contratação de Propostas Artísticas para o Museu de Arte de Rua (MAR). A seleção dos projetos será realizada em duas categorias, solo e em altura.
"Estou mega empolgada para essa realização e feliz porque foram mais de 600 inscrições em nível nacional e eu consegui ser classificada entre as 35 propostas aceitas", conta.
Dinha destaca que seu maior sonho é poder possuir seu próprio ateliê, além de participar de um festival de muralismo fora do Brasil."Já tive a oportunidade de participar de evento de arte urbana para mulheres no Peru em 2020, porém um festival de muralismo ele tem o seu valor, é diferente", revela empolga.
Projeto Pinte Como Uma Garota
Ao Vida&Arte, a artista Dinha Ribeiro contou que em outubro, nos dias 17 e 18, vai ministrar a oficina "Pinte como uma garota" em parceria com a Escola de Artes Visuais Vila das Artes.
O projeto será voltado para jovens e idosas e acontece no mês da campanha "outubro rosa", que tem como principal objetivo alertar mulheres e a sociedade sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama.
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Instagram: @dinha.ribeiro_