Quando Regina Casé e Camila Márdila dividiram o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Sundance nos EUA por "Que Horas Ela Volta?" (2015), o nome de Anna Muylaert foi redescoberto pelo Brasil e pelo mundo, mesmo que sua estreia nacional tenha acontecido ainda nos anos 1990 como roteirista de "Mundo da Lua", seriado infantil exibido pela TV Cultura. Naquele momento crítico para a política brasileira, sua história sobre a filha de uma empregada doméstica que entrava na universidade pública soou como defesa direta da esquerda representada pelos governos petistas.
Em agosto deste ano, a diretora subiu no palco do Palácio dos Festivais no 52º Festival de Cinema de Gramado com um grande elenco feminino 22 anos depois que seu filme de estreia "Durval Discos" (2002) venceu quase tudo naquele mesmo evento.
Com estreia marcada para novembro, "O Clube das Mulheres de Negócios" parodia os papeis de gênero que são literalmente invertidos - enquanto as mulheres ocupam o espaço de poder, os homens é que são oprimidos. Em entrevista ao O POVO, Anna Muylaert apresenta seu novo filme contando sobre ser mulher numa indústria tão repressora ao longo da trajetória de quase 40 anos.
O POVO - O filme é direto nessa dualidade de gênero nas esferas de poder. Você, como autora e diretora, viu essa questão mudar ao longo da carreira no cinema brasileiro?
Anna Muylaert - Eu acho que quando eu comecei era muito difícil. Não tinha tantas mulheres como roteirista ou diretora. Mas o marco inicial da retomada já é um filme da Carla Camurati, já começamos a ver autoras femininas. Isso vem melhorando, mas a mulher tem um limite dentro da estrutura patriarcal. Você pode ir até um ponto. Na Europa eles chamam de “teto de cristal”. É um teto transparente, mas se passar você se machuca. No ‘Que Horas Ela Volta?’ eu passei esse limite e me cortei. Esse tema ficou mais importante para mim porque eu estava machucada, mas logo depois veio o “Me Too” que abriu para essa questão. De 2017 para cá houve uma conscientização bem grande na sociedade. Hoje eu recebo telefonemas de pessoas que tem um projeto e precisam de uma “diretora mulher”. As profissões estão mais inclusivas. Acho que a sociedade está se mexendo na questão das identidades.
OP - O filme é abertamente uma comédia, mesmo que seja pelo avesso. A comédia é um gênero muito importante no Brasil, pela audiência e pela bilheteria. No palco, você disse que o elenco reúne mulheres de diferentes gerações, então como você avalia a comédia hoje no Brasil e como teu filme se encaixa nisso?
Anna - No ano passado, o filme da Tata Werneck e da Ingrid Guimarães deu um número muito expressivo. Brasileiro gosta de comédia. Mas o meu filme é uma comédia ácida, então acho que ele não se encaixa em nada, vamos ver como que o público sente.
OP - A questão de raça e classe também está no filme. A cena da fuga das funcionárias é muito emblemática e, dentre elas, também há mulheres. O Candinho, vivido por Rafael Vitti, é oprimido por ser homem, mas ele faz parte da classe financeira dominante.
Anna - Acho que o filme faz um cruzamento de tudo isso. Quem manda é o patriarcado branco e hétero e quem não está aí... O filme tem esse cruzamento. Ele fala de classe e raça embutido. Não é porque o Candinho é de uma classe financeira que ele estará protegido por aquela questão de gênero. As empregadas se insurgem numa linha de absurdo. Acho que o filme fala sobre poder.
OP - Você comentou sobre os efeitos especiais, em especial das onças-pintadas. Me surpreendo que elas apareçam de maneira tão frontal, elas encaram a câmera. Esse elemento, você sempre o quis tão perto ou no começo era pensado para ser um detalhe?
Anna - Na escrita do roteiro, eu achei que estava o mínimo necessário. Tinha uma entrada de longe, outra na caçada, e tem finalmente a grande entrada na casa. Era bem pouco, mas eu não tinha ideia de que era tão caro, e não dá para filmar com o próprio animal. Acabei resolvendo através da amizade com o Alceu, da Vetor Zero.
OP - No palco, você também falou sobre essa “Era dos Streamings” se aproximando do Brasil e que sentia um rebaixamento do autor.
Anna - Existe uma questão que a imprensa ainda não está falando, mas que no meio falamos muito. Com a entrada das multinacionais do audiovisual, houve uma grande mudança no mercado. Tanto no tipo de produto que é feito, porque existe uma regra americanizada de algoritmos que faz com que filmes ou séries não sejam regidos por autoria, mas por matemática, quanto no modo de produção também. Eles inflaram o mercado e têm um modo de trabalhar com notes, com calls, feedbacks, que acabou influenciando o mercado, até mesmo quem não faz parte. Essas multinacionais trabalham a partir das chefias internas. O chefe brasileiro, o chefe americano... Mudou a lógica. Dentro da Ancine você era produtor independente, autor, diretor e isso era a autoridade máxima dentro de uma hierarquia de filme. Hoje não. Dentro dessa nova lógica, o diretor é apenas uma parte da cadeia de serviço. O grande chefe é americano. A gente não está se dando conta que a maior parte da produção hoje está sendo feita para americanos ganharem dinheiro. Sem falar na propriedade intelectual e na propriedade mesmo do produtor. Ninguém mais é dono de nada, então isso está vindo muito sorrateiramente e existem vantagens porque há mais empregos e se paga melhor em alguns casos. Mas isso está mudando muito a forma de trabalho que o cinema demorou 100 anos para construir.
OP - “Que Horas Ela Volta?” trouxe uma atenção muito grande para sua carreira e ele trouxe essa discussão política muito forte porque era um período muito estranho do Brasil. Depois teve o impeachment, Temer, Bolsonaro... Hoje, em 2024, no Governo Lula, como você avalia essa mudança no cinema brasileiro?
Anna - O ‘Que Horas’ celebra e historiografa uma mudança no tecido social causada por políticas públicas do PT, notadamente as cotas raciais e o ProUni. E logo em seguida vem tudo que a gente sabe, inclusive pandemia. Lula vai preso, Lula sai da cadeia, Lula é eleito. Acho que nunca houve uma década com tanto evento, quase um tsunami. Hoje, existem questões da sociedade que são além de governo. Hoje há inclusão de mulheres e pretos no Brasil e a própria branquitude está vendo que não dá mais para viver segregação, que não estamos mais no século XX. Mas existem novas questões. O vício no celular, a apreciação das narrativas curtas de TikTok... Eu tenho a impressão de que nossos cérebros estão sendo alterados. As pessoas estão mais ansiosas. A experiência compartilhada de sala, de ver uma narrativa longa, os números estão baixos. É um momento complicado, de grande mudança. Para onde vai, não sei. Mas, por exemplo, este momento em que a Simone Biles, maior ginasta do mundo, se reverencia à brasileira Rebeca Andrade que acabou de ganhar dela... Isso para mim é uma esperança que do mundo feminino vá sair mais civilidade.
*O repórter viajou a convite do Festival de Gramado