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HQ sobre cangaço tem foco no protagonismo feminino
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HQ sobre cangaço tem foco no protagonismo feminino

HQ "O Silêncio e a Tempestade" traça paralelos com o cangaço ao abordar violência do sertão nordestino na década de 1940
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Foto: IMAGENS: Wander Antunes/Divulgação HQ "O Silêncio e a Tempestade", de Wander Antunes, traça paralelos com o cangaço ao abordar violência do sertão nordestino na década de 1940

O fenômeno histórico do cangaço no Brasil, com Lampião, Maria Bonita e seu bando como principais expoentes, continua a dividir opiniões até os dias atuais. Afinal, seriam eles bandidos cruéis ou pessoas oprimidas que não encontraram outra saída senão lutar contra os coronéis, que exerciam seu poder sem limites?

Alguns afirmam que o cangaço está longe de ser uma revolta popular e que o movimento não passava de meros criminosos violentos em busca de dinheiro e poder. Outros, em uma análise mais profunda, argumentam que muitos entraram no crime não por escolha ou vocação, mas por falta de alternativas para a sobrevivência.

Wander Antunes explora esse ambiente, traçando paralelos com a atualidade, ao abordar a violência do sertão nordestino nos anos de 1940, após a morte de Lampião e seu bando, na Graphic Novel "O Silêncio e a Tempestade", lançada em outubro pela editora Conrad. Com um foco no protagonismo feminino, a narrativa gira em torno de Mudinha e Ventania, duas mulheres que lutam para sobreviver em um Nordeste dominado pelo coronelismo e que sonham com uma vida justa, longe da opressão e da violência imposta pelos homens em suas vidas.

A trama não perde tempo em exemplificar a brutalidade que permeia a história. Mudinha, após encontrar abrigo na propriedade de um coronel local, é forçada a se tornar esposa do padrasto, que após a morte recente da mãe da protagonista, acredita ter direito total sobre a mesma, uma vez que a sustenta. E esse tipo de terror é uma constante em "O Silêncio e a Tempestade".

Apesar de toda a dor e sofrimento que Mudinha enfrenta, ela encontra uma faísca de esperança ao descobrir a presença de um bando de cangaceiros na região, liderado por uma mulher chamada Ventania. É nesse apoio feminino que a história ganha força. Enquanto os diálogos dos personagens masculinos revelam brutalidade e indiferença em relação aos pobres e às mulheres, o vínculo de solidariedade entre as protagonistas femininas se destaca, contrapondo-se à violência que as rodeia.

Embora não se concentre diretamente no cangaço, a visão do autor deixa claro que os verdadeiros vilões daquele contexto não são os cangaceiros. Os únicos homens que demonstram empatia e respeito por personagens femininas são justamente os cangaceiros sob a liderança de Ventania.

Esse contraste entre a solidariedade dos cangaceiros e a crueldade dos coronéis é intencional, ressaltando a brutalidade e a indiferença dos poderosos em relação aos pobres e, especialmente, às mulheres. Antunes evidencia como essas figuras de autoridade perpetuavam a violência como uma norma, estendendo a opressão de geração em geração. Enquanto o bando de cangaceiros oferece acolhimento e respeito à protagonista, a postura do coronel e de seus subordinados reflete uma relação marcada pelo abuso e pela exploração. Esse paralelo reforça a ideia de que, para os coronéis, a vida dos pobres e das mulheres era apenas uma extensão de seu domínio, mantida sem escrúpulos para sustentar o status quo de sua autoridade absoluta.

A obra provoca uma reflexão sobre como o poder dos coronéis persiste até o contexto atual, traçando paralelos claros com a atualidade. A vulnerabilidade das mulheres representadas por Mudinha e Ventania realmente deixou de existir? Para o autor, o ciclo de violência e pobreza enraizado na sociedade permanece claramente inalterado.

"O Silêncio e a Tempestade" é uma HQ poderosa e necessária, que, embora conte uma história ocorrida há mais de oitenta anos, permanece assustadoramente atual. A obra não apenas revisita um passado sombrio, mas também provoca uma reflexão crítica sobre as persistências da opressão e da desigualdade na sociedade contemporânea.

 

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HQ "O Silêncio e a Tempestade", de Wander Antunes, traça paralelos com o cangaço ao abordar violência do sertão nordestino na década de 1940

O Silêncio e a Tempestade

de Wander Antunes

Editora Conrad

80 páginas

Preço médio: R$ 79,90 (livro físico) e R$ 55,90 (livro digital)

Onde comprar: editoraconrad.com.br 

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