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"A minha vida é o forró"
Vida & Arte

"A minha vida é o forró"

Do Clube do Vaqueiro ao Cajueiro Drinks, as memórias de quem viveu o auge do forró na Grande Fortaleza se encontram na diversão, na renda e no estímulo à cultura
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"Apagam-se as luzes do Sítio Siqueira", anuncia no microfone o radialista e locutor Rasga Baleia. O discurso é conhecido e ambienta o público na atmosfera que está por vir: em instantes, é hora da diversão. Mais que isso, aliás. Pode colocar no caldeirão dança, cerveja, confraternização, amizade e, claro, música.

O Sítio Siqueira é apenas uma das várias casas de forró que ficaram consagradas entre os anos 1980 e 2000 na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). A viagem no tempo é sonorizada por bandas que também surgiram nesse período, como Mastruz com Leite, Cavalo de Pau e Brasas do Forró.

Trânsito intenso, lotação, bebidas, forró por longas horas e clubes na periferia são memórias que rondam o auge do gênero musical na Grande Fortaleza. As festas eram realizadas todos os dias e a adesão era massiva. Neste episódio da série de reportagens sobre a noite fortalezense, é tempo de revisitar as casas de forró.

Um dos pontos mais tradicionais para o forró em Fortaleza é o Kukukaya. A casa surgiu para celebrar a música do Nordeste e valorizar a cultura local - o nome também faz referência à canção "Kukukaya (Jogo da asa da Bruxa)", de Cátia de França. O espaço segue em funcionamento.

"O Kukukaya surgiu com uma proposta alternativa no polo do Benfica, um bairro tradicional da efervescência cultural de Fortaleza. Um espaço de música e boas comidas. O forró chegou no momento em que a Cidade estava vivendo uma ausência dessa tradição e preencheu uma lacuna", relata Walter Medeiros, um dos primeiros administradores do empreendimento junto com a esposa, Elaine Brito.

Segundo Walter, quando o Kukukaya foi criado, a Capital "vivia um momento de discriminação com as tradições" no qual "reinava o chamado forró de plástico". "Foi um desafio, vencido com muito zelo com a música autêntica nordestina", afirma. Entre os artistas que passaram pelo Kukukaya estão nomes como Dominguinhos, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner, Moraes Moreira, Dorgival Dantas e Kátia de França. "Éramos muito ligados à boa música brasileira", destaca Walter que, há cerca de dez anos, vendeu a marca do Kukukaya. Hoje, o empreendimento localizado na avenida Pontes Vieira é administrado por outros parceiros.

No Parque Araxá, "bairro muito musical e diverso", como destaca o sociólogo e produtor cultural Amaudson Ximenes, surgiu o Forró do Valdemar (1988-1990). A história do espaço se relaciona com a criação de um espaço de lazer para os brincantes do Maracatu Leão Coroado. Assim, foi idealizado o Forró do Leão Coroado.

Aos sábados e domingos, os integrantes do maracatu se reuniam ao som da vitrola para "desfrutar do tradicional forró cearense". A sede passou a ocupar espaço na rua Moreninha Irineu, sendo seus "vizinhos" os amigos José Pereira, Valdemar Gomes e demais participantes da agremiação carnavalesca.

O forró se firmou ao longo dos anos e se tornou uma grande atração. A agremiação carnavalesca, porém, enfraqueceu entre os anos 1980 e 1990. "O bloco aos poucos foi se despedindo das ruas, mas o Forró do Leão permanecia por iniciativa do então idealizador Valdemar Gomes da Silva. Assim, o forró passou a ser conhecido como Forró do Valdemar", explica Aldecir Ferreira da Silva, filho de Valdemar.

Com a iniciativa, foi possível "difundir a cultura carnavalesca e o forró tradicional do Ceará", estabelecendo fortes vínculos de amizades e marcando história. Para a neta de seu Valdemar, Daniela Silva, a relação com o forró de hoje é "de estranhamento", pois o ritmo é "bem diferente do período do seu avô".

Como apontado pelo sociólogo Amaudson Ximenes, o Parque Araxá foi palco de acolhimento para o forró com espaços como o "Forró do Bosco" ou "Forró da Leda". "Estava situada na rua Azevedo Bolão. Acontecia aos domingos no quintal do casal. Começava às 17 horas e seguia até meia-noite. A vizinhança apoiava e frequentava o espaço", indica.

O sucesso das casas de forró principalmente nas décadas de 1980 e 1990 não é novidade, mas surge a dúvida: o que pode explicar esse "boom"? Para Pedro Rogério, professor e pesquisador de História da Música Cearense na Universidade Federal do Ceará (UFC), duas grandes fontes de influência foram fundamentais para a ampliação das casas de forró.

Segundo Pedro, houve o apoio de empresas ligadas ao agronegócio financiando grandes vaquejadas no Nordeste e rodeios nas demais regiões do Brasil. Por outro lado, o impulso das telenovelas que tiveram o ambiente da fazenda e negócios com gado como tema. Ele cita o Clube do Vaqueiro como a casa de shows de forró mais conhecida - "grandes festas patrocinadas por grandes empresas de bebida".

Entram em cena, então, um grande setor do comércio favorável ao surgimento do fenômeno, uma cultura nacional alimentada por novelas, empresas interessadas na adesão ao tema nacionalmente e, claro, "a música que chega a seu auge com Beto Barbosa, se tornando o símbolo maior do forró". Destaque também para Sidney Magal para o impulso no consumo nacional da lambada, uma dança que vem junto com a música.

Localmente, Pedro Rogério enfatiza a importância de Emanoel Gurgel enquanto "grande empresário com ampla visão comercial". Ele investiu em várias bandas de forró, que viajavam por cidades do Interior do Brasil, e virou proprietário da rádio SoomZoomSat, com difusão nacional. Ela transmitia shows e formava "o gosto musical do público".

"Estamos falando de uma cultura de massa, com divulgação em massa para consumo em massa. As festas eram o endereço natural dos finais de semana. A maioria longe dos bairros de classe média e alta da cidade. Não era uma cultura cult, era um produto de entretenimento produzido e vendido em larga escala", analisa.

De fato, o rádio teve grande importância na disseminação do forró. O radialista Rasga Baleia, com quase 40 anos de rádio, teve - e continua tendo - influência no cenário. Ele surgiu no cenário do forró em 1996, quando foi convidado por Assis Monteiro para alavancar o forró na Rádio Tropical FM.

Antes, era conhecido como DJ Baleia e comandava programas de funk, rap, dance music e músicas românticas na rádio Jangadeiro. Ao passar para o forró, consolidou seu nome. Ele também teve passagem de dois anos pela Rede Somzoom Sat. Além de ser a voz da rádio, ele era a "cara dos palcos".

"Era a cara do Sítio Siqueira. 'Apagam-se as luzes do palco do Sítio Siqueira': a frase que todo mundo me pede para falar hoje", recorda Rasga Baleia. O locutor lembra alguns destaques das casas, como a entrada acessível do Sítio Siqueira e preço camarada da cerveja. Além disso, o público ficava junto, misturado, não havia divisão de lounge ou camarote. "A minha vida é o forró. Tudo que tenho devo ao forró. Os amigos que tenho, tudo foi movimentado pelo forró", complementa.

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