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Eunice Paiva e as Bruxas de Oz sob a sombra do militarismo
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Eunice Paiva e as Bruxas de Oz sob a sombra do militarismo

Duelando pelas bilheterias brasileiras, "Ainda Estou Aqui" e "Wicked" conversam, mesmo que tão distantes entre si
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Foto: Universal Pictures/Divulgação Cantando ao vivo, "Wicked" tem Cynthia Erivo e Ariana Grande no elenco

Numa manhã da semana passada abri o WhatsApp e tinha uma mensagem do meu primo de 14 anos: "Cara queria te perguntar uma coisa". Jurando que eu ainda o conhecia da infância, agora em meio às intensidades da adolescência, pensei em dezenas de coisas que poderiam ser o assunto da dúvida - logo fui na ascensão para a Série A do Ceará, time que me empolga por mera tradição familiar e pelo qual ele é muito torcedor -, mas em nenhum momento passou pela minha cabeça que a pergunta seria sobre "Ainda Estou Aqui".

Levi estava imerso no universo trágico relatado pelo filho de Rubens Paiva, ex-deputado morto pela ditadura militar brasileira, e estava atrás de informações sobre seu livro homônimo que deu origem à trama de Walter Salles. "Pois eu e minha mãe vamos comprar", ele retornou. Era uma dúvida autêntica. Essa conversa, mesmo tão simples e trivial, mexeu comigo porque me fez pensar no fenômeno que esse filme está vivendo.

Nesta mesma semana, como se seguisse um roteiro propriamente cinematográfico, duas notícias endossaram a avalanche. Na terça, 26, a Polícia Federal afirmou que Bolsonaro estava ciente do plano militar para abolir o estado democrático de direito após sua chapa, sob vice-liderança de Braga Netto, ter perdido as eleições de 2022 para Lula e Alckmin.

Sob um luto cruel e eterno, Eunice Paiva lutou por anos para que o horror dos governos militares nunca fosse esquecido, trajetória que o filme conta de forma impressionante na ficção. De repente, 60 anos depois, descobrimos que estivemos muito perto de vivermos outro 1º de abril? Não parece irônico essa revelação acontecer enquanto "Ainda Estou Aqui" está em cartaz e levando multidões para os cinemas?

A outra notícia vem de uma celebração com poucos precedentes. Naquela semana, pelo terceiro final de semana consecutivo, o filme brasileiro cravou o topo das bilheterias nacionais mesmo enfrentando as 1.502 salas de "Wicked", aguardada adaptação do musical da Broadway que se passa no universo do clássico "O Mágico de Oz" e que tem no elenco a estrela pop Ariana Grande como a Bruxa Boa do Sul.

Mas o grande acontecimento do filme mesmo é Elphaba, a chamada "Bruxa Má do Oeste", interpretada com grande presença por Cynthia Erivo, cotada inclusive para o Oscar. A personagem é constantemente afastada do convívio social pela sua aparência física - a cor verde da sua pele sempre parece ser uma questão a ser encarada. Ela percebe, de repente, que Oz está sendo acometida por um silenciamento autoritário que quer impedir os animais de falarem para aprisioná-los.

A cena em que Dr. Dillamond, um professor bode, é arrastado por forças policiais dentro da escola sob a anuência imóvel dos alunos me levou imediatamente àquela cena que havia visto semanas atrás, quando Rubens Paiva (Selton Mello) é intimado sob uma falsa cordialidade para nunca mais voltar. Quando se revolta contra esse sistema em Oz, e principalmente quando descobre a farsa da sua origem, Elphaba se torna o alvo.

As três cenas se sobrepõem como numa fábula do absurdo: uma reconstituição do passado, uma investigação da realidade no presente e um musical da Broadway. Mesmo com suas distâncias imensas, parece uma observação muito triste da forma como a Terra gira - de que esse sonho falido do autoritarismo parece nunca deixar as sombras da história.

Por isso mesmo fiquei mexido quando abri o WhatsApp e vi aquela mensagem do meu primo de 14 anos. A ditadura militar poderia ser para ele só um capítulo do livro da escola, mas, de repente, era o pavor muito real de uma família, de uma mãe que nunca pode chorar na frente dos filhos. Por conta de um filme, que está em plena campanha para a premiação de cinema mais famosa do mundo e que é plenamente brasileiro, ele vai ler a história - e não vai esquecê-la.

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