No início do século XVII, o indígena Tupinambá Tibira foi brutalmente assassinado em praça pública em região onde hoje é localizado o estado do Maranhão. O motivo? “Sodomia”. Essa foi a “acusação” estabelecida em registros feitos pela Igreja Católica durante as expedições da época. Tibira do Maranhão é considerada a primeira vítima de LGBTfobia documentada no Brasil.
A memória do indígena é resgatada por meio da exposição “Degenerado Tibira”, organizada pelos artistas e pesquisadores cearenses Eduardo Bruno e Waldirio Castro. Eles também fazem a curadoria da mostra, que apresenta um panorama da arte queer brasileira sob a ótica de 19 artistas LGBTQIA+ de sete estados do Norte e do Nordeste do Brasil.
Aberta em Fortaleza na Casa do Barão de Camocim em 2023, a mostra agora chega a terras alemãs. A exposição fica aberta na Embaixada do Brasil até março. A ação é realizada por meio da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult-CE) em parceria com a Plataforma Imaginários.
O percurso até Berlim não foi aleatório. Como afirma Eduardo Bruno, a Plataforma Imaginários realiza desde 2018 ações de internacionalização da produção cearense, do Nordeste e do Norte. Em 2022, por exemplo, Bruno e Waldirio fizeram exposição em Valência, na Espanha, em um museu de arte queer.
Assim, foi um processo de diferentes etapas que resultou na chegada a Berlim. Em 2024, os responsáveis por “Degenerado Tibira” foram convidados por Ziel Karapotó, um dos artistas da exposição, a irem à première da Bienal de Veneza.
Lá, conversaram com Bernardo Andrade, do Instituto Guimarães Rosa, órgão voltado à diplomacia cultural e educacional do Brasil. O objetivo era compreender como os espaços culturais das embaixadas eram ocupados, visto que os trabalhos artísticos eram “muito focados no eixo Sul-Sudeste do Brasil”.
A exposição é inaugurada no contexto do 75º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), como aponta Maria Lima Kallás, chefe do setor cultural da Embaixada do Brasil em Berlim. Neste período a cidade “está lotada de amantes das artes” e eram esperadas mais de 300 pessoas para a inauguração da mostra na última segunda-feira, 17.
De acordo com Kallás, a importância da exposição ser realizada em Berlim é múltipla. Há o fato de que é “uma cidade onde a temática ‘queer’ encontra muita ressonância e receptividade”, bem como a oportunidade de colocar em evidência regiões do Brasil que, historicamente, “receberam menos divulgação no exterior”.
“Por fim, porque os tempos que estamos vivendo internacionalmente nos exigem reafirmar a força da diversidade e o compromisso do Estado brasileiro com a defesa dos direitos humanos de todas as pessoas”, reforça. A partir de quinta-feira, 20, a mostra estará disponível para o público geral.
A pesquisa para “Degenerado Tibira” começou em 2022 e parte da figura de Tibira do Maranhão. “Pensamos na figura de Tibira enquanto ancestral LGBTQIA+ brasileiro e buscamos olhar para a produção de artistas do Norte e Nordeste que tenham essa ética queer, transviada. Refletimos sobre a pulsão de vida que essa comunidade produz, apesar da violência que infelizmente ainda nos atravessa”, pontua Waldírio Castro.
Entre os artistas participantes estão dez cearenses, como Filipe Alves, Maria Macêdo, Bárbara Banida e a artista visual e pesquisadora Marília Oliveira. Ela apresenta “Museu do Amor Sapatão”, obra performativa visual de impressão e distribuição de santinhos que avisam sobre a inauguração do tal museu. A ideia é apontar para a falta de iniciativas museais de proteção à memória lésbica a partir da afirmação da construção de um museu que não existe.
Com isso, o público reflete sobre como seria esse museu. Em Berlim, a obra é intitulada “Museu da Sapatão Brasileira e Latino-Americana”. “Como é a primeira vez que o trabalho está indo para um país europeu, é importante pensar nessa camada de ser uma ‘sapatão’ brasileira ou da América Latina. É pensar na latinidade como marcador”, explica a artista.
"É importante pensar como essa exposição sai do que se espera de obras de pessoas LGBTQIA+. Ela foge das caricaturas que se instituíram sobre esse tipo de trabalho. Destaco o caminho que essas obras fizeram para chegar a Berlim, como o trabalho de curadoria de cearenses que pensam o Ceará em relação com tantos outros países. É importante para nós, artistas cearenses, vermos trabalhos na Embaixada e em outros países. Pela curadoria deles, me deixa com a sensação de que, quando fazemos juntos e quando há um trabalho embebido em generosidade quanto a ampliar espaços, todo mundo tem a ganhar".
Além da exibição das obras, a exposição prevê momentos de conversas, como na quinta-feira, 20, quando haverá bate-papo dos curadores com Marília Oliveira. Na semana seguinte, o artista M. Dias Preto é destacado, seguido de bate-papo com a pesquisadora Jamille Pinheiro Dias. Em 4 de março, a curadora-adjunta Paola Maués é convidada, e na sequência há bate-papo com a pesquisadora Isabel Von Holt.
Essa é a primeira exposição abertamente LGBTQIA+ realizada em um espaço cultural da embaixada brasileira no exterior. Waldírio relata ficar “muito feliz” com a materialização da mostra, principalmente “em um momento tão delicado, com o crescimento da extrema-direita e do neoconservadorismo, que não pensa em políticas para pessoas LGBTQIA+”.
Com a localização da mostra em uma cidade que “recebe diversos imigrantes de diferentes países”, é uma possibilidade de circulação de nacionalidades diversas na exposição, amplificando as mensagens do material reunido. Diante disso, Eduardo Bruno ressalta a importância de discutir as temáticas estabelecidas em “Degenerado Tibira”.
A discussão parte da compreensão de que a história de Tibira do Maranhão deveria ser mais contada: “Quando trazemos essa história para o cenário internacional, apresentamos outras faces do que é o Brasil, não só essa cara que é mais tradicional a partir do Sudeste do País. Também convidamos a pensar a cara LGBTQIA+, indígena, preta e de pessoas com deficiência que são o Brasil e o mundo”.
Ele complementa: “O mundo não é só branco, cisgênero, heterossexual. Isso é uma forma de imposição histórica. O mundo é essa diferença. A exposição retrata essa diversidade a partir do Brasil, e acho que o fato de o País tratar desses temas em uma embaixada como a de Berlim é histórico. Mostra como o Brasil está encabeçando essa luta e querendo trazer esse debate para a arena internacional”.