Se tornou clássico o ensaio ficcional "Um teto todo seu", no qual a escritora inglesa Virginia Woolf cria a metáfora da mulher que escreve como um "gato sem rabo". No texto, a personagem Mary Beton avista e ri de um "gato manx" que surge no meio de um gramado. "Teria nascido assim ou perdera o rabo em algum acidente?" Quando essa história nasceu, transcorria o ano de 1928 e Virginia escrevia a palestra sobre o tema mulheres e ficção, que seria proferida em duas faculdades frequentadas por moças na Universidade de Cambridge. "Um teto todo seu" tem, portanto, quase 100 anos e trafega pelo caminho atribulado que as mulheres percorreram - e ainda percorrem - rumo ao mundo da escrita e da voz autoral.
A narradora, em outro momento do ensaio, se vê às voltas com duas informações relevantes. No exato dia em que soube que teria direito ao voto, recebeu uma carta sobre a morte da tia Mary Beton que lhe deixara como herança 500 libras por ano para sempre. "Dos dois - o voto e o dinheiro -, o dinheiro, reconheço, parecia infinitamente mais importante", afirma, enquanto reflete sobre as linhas tortuosas e incertas nas quais a escrita feminina dava passos significativos em plenos anos de 1920.
Nessa época, a literatura de ficção já havia se firmado como um produto feminino, desde meados no século XIX, devido às mudanças radicais que a vida urbana e burguesa havia proporcionado na Europa, com a expansão das mulheres alfabetizadas e ávidas por romances. Porém, havia uma distância, para não dizer desconfiança entre o público consumidor de romances, escritos majoritariamente por homens, e a escrita de uma mulher.
"Escrever, traçar o próprio destino (...) tornar-se autora", construir um espaço de identidade feminina que compartilha subjetividades, como compreende a escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, exigiu o enfrentamento, por parte das mulheres, de inúmeros obstáculos que podem ser elencados desde os financeiros, às exigências da maternidade, às expectativas da sociedade contemporânea, às condições de lidar com os próprios desejos.
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No Brasil, um país essencialmente agrícola, onde o analfabetismo grassava de ponta a ponta entre fins do século XIX e início do século XX, muitas mulheres já desafiavam os espaços masculinos no mundo das letras, muito embora permanecessem apagadas e fossem consideradas escritoras "menores" por muito tempo na historiografia da literatura brasileira. Maria Firmina dos Reis, escritora negra maranhense, por exemplo, publicou "Úrsula" em 1859, primeiro romance a explorar o tema antiescravista no País. Apesar disso, foi necessário que se passasse mais de um século para que ela fosse redescoberta, em 2007.
"A Rainha do Ignoto", hoje tido como o primeiro romance fantástico publicado no Brasil, de autoria da escritora cearense Emília Freitas, teve sua primeira edição em 1899, e somente após um silêncio de décadas, o livro ganhou novas edições. Emília publicou muitos outros livros, entre eles, "A Divorciada", com forte reação do público e da crítica e escrevia para jornais.
Uma vida em situação de vulnerabilidade não impediu que Carolina Maria de Jesus causasse um "quê" de desassossego na literatura brasileira com o seu "Quarto de Despejo", em 1960. Carolina figura nas memórias de Françoise Ega, nascida na Martinica e que, por anos trabalhou como empregada doméstica em Paris, enquanto escrevia no trajeto de casa para o trabalho, antes de se tornar escritora. "Pois é, Carolina, as misérias do mundo inteiro se parecem irmãs. Todos leem você por curiosidade, já eu jamais a lerei; tudo o que você escreveu, eu conheço", disse Ega no livro "Cartas a uma negra", publicado no Brasil, em 2021. A escritora mineira Conceição Evaristo tem inspirado gerações a partir da criação da sua práxis poética escrevivência, que se tornou o ícone de uma escrita coletiva essencialmente feminina.
Nos últimos anos, no Brasil, e aliás, este é um movimento que tem tomado conta do Ocidente, as mulheres têm ampliado sua voz autoral a despeito dos muitos obstáculos que ainda persistem. Nos próximos dias, durante a XV Bienal Internacional do Livro do Ceará, dezenas de mulheres escritoras e leitoras aos milhares estarão juntas numa confraria em torno de textos que, com certeza, foi imaginada por tantas autoras que conheceram a solidão, o desconforto e o anonimato, mas que ainda assim impulsionaram a multiplicação da espécie rara dos gatos sem rabo.
Sobre Regina Ribeiro
Sou jornalista de formação. Tenho o privilégio de ter uma vida marcada pela leitura e pela escrita. Foi a única coisa que eu fiz na vida até o momento. Claro, além de criar meus três filhos. Trabalhei como repórter, editora de algumas áreas do O POVO, editei livros de literatura, fiz um mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC). Sigo aprendendo sempre. É o que importa pra mim.
Processo
A escritora cearense Bruna Sonast vai ministrar o workshop "Do Escrever: Caminhos e Processos de Escrita" da programação do Eixo Literatura e Juventude