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Ana Márcia Diógenes: Boiar nas palavras e iluminá-las
Vida & Arte

Ana Márcia Diógenes: Boiar nas palavras e iluminá-las

As vivências literárias da jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Edição Impressa
Tipo Opinião Por
A escritora e jornalista Ana Márcia Diógenes (Foto: @somoselasclube / divulgação)
Foto: @somoselasclube / divulgação A escritora e jornalista Ana Márcia Diógenes

Me afoguei três vezes antes de aprender a nadar. Uma delas na própria piscina, durante uma aula de natação. Fui resgatada pelos cabelos. Os afogamentos ficaram no passado e só voltam à lembrança quando ouço uma história que tenha a ver com o assunto. Mas o momento exato em que percebi que podia fazer meu corpo boiar até a borda da piscina, e que isso dependia só de mim, nunca esqueci. Foi como atravessar a porta daquele guarda-roupas do livro "As crônicas de Nárnia", de C. S. Lewis: uma experiência que se eterniza na memória.

Faço esta analogia quando penso em como a literatura aparece na minha vida. Desde pequena, tive acesso a livros. Parte da minha alfabetização foi em casa. Não tínhamos carro ou TV em cores, tínhamos livros e discos. Livro lá em casa era presente até para ajudar a aguentar a dor de remédio injetável. Para quem precisou ser operada duas vezes da garganta, imaginem quantos kits de histórias infantis que ganhei.

Assim como nas aulas de natação, não é somente o ganhar livros em casa ou acessar via biblioteca da escola que introduz de fato uma pessoa na literatura. Eu podia ver aqueles livros só como tentativa de controlar meu choro, ou até odiá-los por me remeterem à dor de ser furada. Para usar os livros como ventarolas de janelas que me davam passagem para vários outros mundos, tive que ultrapassar novamente a porta para Nárnia e me permitir fluir em espaços mentais onde as palavras me levavam.

E fluiu várias vezes, quando calçava, na imaginação, o sapatinho de cristal da Cinderela, ou me sentia sufocada ao pensar como ia respirar na barriga do lobo mau até o lenhador me encontrar. E assim segui, dando a volta ao mundo em 80 dias, faminta na ilha com Robinson Crusoé... até chegar aos paradidáticos de José de Alencar, Machado de Assis e tantos outros.

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No ano passado, li a entrevista no site da revista Veja com a antropóloga francesa Michèle Petit, autora de "Somos animais poéticos" (Editora 34), em que dizia "O gosto pela leitura se transmite. E antes de tudo em família". Concordo com a pesquisadora. Só gostaria de acrescer a esta afirmação uma reflexão. Além do esforço que famílias, escolas, comunidades e governos devem fazer para que desde criança se goste de ler, é preciso espalhar ventarolas que façam os pequenos leitores encontrarem os seus portais de encantamento.

Por ventarolas, entenda-se quaisquer caminhos que estimulem a mente a boiar nas palavras, nos sentidos, nos contextos, até alcançar outra página do livro, outra história... sem que se afogue nelas. E aqui não me refiro só aos leitores de pouca idade, mas a todos e ao respeito pelo percurso de cada um. Não importa se for via livro romântico, ou via adaptação literária ao cinema para depois ler o livro, ou ainda por meio das dicas nas redes sociais. Depois que a mente aprende a boiar, pode nadar por várias águas. Boiar nas palavras é o caminho na literatura.

O gosto pelas palavras me fez escolher a profissão de jornalista. À época, submeti alguns poemas e contos ao jornalista Blanchard Girão para saber se levava jeito na escrita. Ele me animou a seguir. Diante do ritmo do trabalho e das funções que exerci, guardei os escritos. Durante anos, caminhei no jornalismo, na gestão e na academia até outro portal, o do autoconhecimento, me sacolejar para o que sempre me preparei, mesmo sem planejar: a literatura.

Quando soube, este ano, que "Das fogueiras ao fogo das palavras: mulheres, resistência e literatura" é o tema da XV Bienal Internacional do Livro do Ceará, celebrei o rumo das ventarolas. É necessário que portais, pontes, janelas, e tudo aquilo que permita a passagem, reforcem as possibilidades de resistência e de escolha de quando queimar ou boiar palavras na mente.

Mulheres, ao longo da história, passaram por negação das suas capacidades ao ponto de terem que usar pseudônimo masculino para conseguir publicar. Outras só conseguiram escrever quando se livraram de relacionamentos abusivos.

A Bienal me traz a certeza de que é preciso boiar nas palavras e delas fazer fogo, para que a literatura ilumine a todos/as.

Sobre

Ana Márcia Diogénes é jornalista, professora e consultora. Mestre em Políticas Públicas, especialista em Responsabilidade Social e Psicologia Positiva. Foi diretora de Redação do O POVO, coordenadora do Unicef, secretária adjunta da Cultura e assessora Institucional do Cuca. É autora do livro De esfulepante a felicitante, uma questão de gentileza

SARAU

O coletivo cultural Cenopoético Viva a Palavra apresenta sarau celebrativo.

  • Quando: domingo, 6, às 16 horas
  • Onde: Salas 9 e 10 do 2º Mezanino - OESTE
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