Sempre fui obstinada. E obstinação — do latim obstinare, "teimar, ficar à frente de, persistir" — é uma palavra elegante, cheia de potência. E me vali desse termo todas as vezes que escutei alguém comentar a minha teimosia. Teimosa, não: obstinada — era a resposta. Quando recebi de presente as ideias de persistência e de perseverança, gostei mais da segunda, porque, para além do seu conceito, soa bonito e rima com esperança. Contudo, resistência expressa bem melhor como eu me entendo no mundo.
Ser mulher em sociedade misógina e patriarcal é resistir. Ser professora em realidade cujo índice de analfabetismo continua expressivo, superior a 8 milhões de brasileiros — segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — é resistir. Ser escritora em País que pouco lê é resistir. Assim como é prova de resistência acreditar no papel transformador da leitura e dos livros. E, na seara literária, amplificar as vozes das minorias é sororidade, ajudar a resistir.
Portanto, encontrei em resistência a tradução legítima do meu espírito teimoso e a representação perfeita da chama acesa que me move dentro e fora das páginas. Se essas páginas são escritas por mulheres, temos muitos motivos para comemorar a ocupação de um espaço negado por séculos de opressão.
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Já nos queimaram nas fogueiras, já nos marcaram a pele com a brasa dos silenciamentos, já nos usurparam a autoria, nos roubaram a luz enquanto a vida encandecia e nos relegaram às cinzas do borralho. Por isso, as palavras ardem em nós.
A XV Bienal Internacional do Livro do Ceará é "Das fogueiras ao fogo das palavras: mulheres, resistência e literatura". Elege como inspiração mais que um tema, o estandarte de Joana D'arc, à frente de um exército de Dandaras, Malalas, Marielles e Fridas. De legiões de Rosas de Luxemburgo, de Nises e de Simones. São Marias Firminas, Carolinas Marias, Marias da Penha. São as três Marias de Rachel, são Marinas, Clarices e Capitus. São Úrsulas, Iracemas, Kareninas, Emilys e Virginias. Todas indomáveis e resistentes. E eternas pela escrita de tantas realizações flamejantes. Evoé, Hilda, Lygia, Adélia e Cecília.
O incêndio das palavras não tem hora para começar nem para terminar. Que o diga Cora Coralina, com o seu primeiro livro publicado aos 75 anos. Teimosa e admirável, entre as pedras que a esmagavam, levantou a pedra rude dos seus versos. Essa é uma verdade confirmada por Ruth Rocha que, teimando com o tempo, aos 93 anos — em plena atividade — fechou contrato para escrever até os seus 108 anos.
A Bienal de 2025 celebra a não rendição, a luta contra a negação dos nossos direitos, de que é símbolo máximo Júlia Lopes de Almeida, vetada por ser mulher, impedida de assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras — instituição que ajudou a fundar —, escritora substituída pelo "acadêmico consorte".
O evento, na XV edição, é também uma iniciativa que resiste. Não desanima frente à escassez de políticas públicas voltadas ao livro e à leitura, à desvalorização da arte e à falta de prioridade a tudo que diz respeito à educação. A Bienal congrega estudantes, autores, leitores, editores, livreiros, toda sorte de curiosos a flanar nos corredores acarpetados entre as prateleiras dos estandes.
É uma bela reunião de teimosos. Lugar de encontro para alimentar o fogo das discussões necessárias acerca do que ainda nos cerceia e nos cala. Um sopro forte que não apaga, ao contrário, aviva, aumenta a intensidade do que se inflama. E acolhe os obstinados, os persistentes, os perseverantes, os renitentes. Em outras palavras, os teimosos por natureza. Com eles me identifico, pois, desde menina, descobri na teima um modo de sobrevivência e intuí do universo que teimosia é o outro nome da resistência.
Sobre Marília Lovatel
Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará (Uece) e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O POVO, plataforma de streaming do O POVO.
Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, em 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil, também em 2024.
Marília Lovatel lança o livro "Salvaterra - Breve Romance de Coragem"