Desde o lançamento do álbum “Todxs” (2018), a cantora e compositora paulista Ana Cañas enfrentou uma “jornada” até a estreia de seu novo trabalho, intitulado “Vida Real”. Nesse intervalo, passou por uma pandemia, aprendizados e um projeto de sucesso no qual interpretou músicas de Belchior.
Além de um disco, essa iniciativa rendeu uma turnê de 180 shows em homenagem ao cantor cearense. “Foi uma grande jornada de lições ‘belchioranas’ do que é perene e do que importa na arte, da conquista de um público que não me conhecia”, destaca em entrevista por vídeo ao Vida&Arte.
Agora, se entrelaça com novo álbum e retorna à autoralidade em obra que atravessa diferentes fases de sua vida. Da morte de seu irmão ao período em que foi amante de um cara casado, Ana Cañas se debruça em sua trajetória por meio de 11 canções inéditas. Ao Vida&Arte, resgata a época na qual saiu cedo de casa e morou em pensionato com profissionais do sexo, assim como quando precisou internar seu pai nove vezes devido à dependência alcoólica.
“Eu sempre estive nessa ‘Vida Real’ que estou falando nesse disco”, pontua. Disponível em plataformas digitais de música, o álbum reúne parcerias com nomes como Ivete Sangalo, Ney Matogrosso e Roberta Miranda. Desenvolvido ao longo de 14 meses, o trabalho abraça o pop.
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“É como se eu tivesse que responder a pergunta: ‘Afinal, quem sou eu?’. A máscara social é muito forte, o convite de fantasiarmos coisas. Todos ansiamos por sermos acolhidos, aplaudidos e amados. O título do disco sempre foi um mote, um pêndulo para eu dizer a verdade. São coisas que passei e sentimentos que tive na vida”, enfatiza.
Para ela, é também um diálogo com a obra de Belchior, pois o cantor falava muito sobre si em canções como “Paralelas” e “Sujeito de Sorte”: “Acho que o Belchior me pegou na mão e falou: ‘Coragem, Ana. Seja você, fale de você, conte seus sentimentos mais profundos e assuma suas dores, seus medos e receios. A vulnerabilidade é o que nos faz humanos”.
Com “Vida Real”, Ana Cañas compreende ter alcançado sua “autonomia artística”. Esse sentimento guia seu novo trabalho porque, em sua avaliação, muitos acharam que ela continuaria “somente” como intérprete depois do sucesso da turnê com músicas de Belchior, mas ela vai além.
“Seria um lugar-comum para mim. Tenho uma ambição saudável como mulher na música de escrever minhas letras. Então, acho que a autonomia artística vem no sentido de fazer minhas próprias canções. Eu poderia cantar Cazuza ou Rita Lee? Poderia, porque são compositores que admiro, mas eu queria fazer um disco autoral. Meu empresário abraçou essa ideia e já estou gestando mais um projeto para o ano que vem”, descreve.
Essa foi uma “porta que se abriu” para a cantora. Além de estar feliz com suas músicas, fica contente pelas parcerias reunidas no disco, como Ivete Sangalo, Ney Matogrosso e Roberta Miranda. Cada um agregou ao trabalho uma característica diferente. A faixa “Amiga Se Liga”, inicialmente pensada para uma colaboração com Marília Mendonça, se transformou em um convite à Roberta Miranda.
Para Ana, a ligação entre as duas por meio do feminismo “é muito forte”, principalmente quanto ao aspecto de “ser mulher na música”. Ivete Sangalo, que participa da música “Brigadeiro e Café”, reflete o “manancial de contato com as pessoas” que Cañas admira, além do fascínio por seu talento.
Amigo de longa data, Ney Matogrosso surge em “Derreti”: “Cada um ali tem muita verdade, foram três conexões muito incríveis. São nomes que agregam, geram curiosidade”. Se, por um lado, Ana Cañas ressalta a conexão de Ivete com o público, é possível dizer que ela também conquistou plateias por meio da turnê sobre Belchior. Ao longo desses anos, percebeu como essa sintonia poderia vir também a partir de sua história de vida.
Lembrando da música “Fotografia 3x4”, a artista compreendeu o seu alcance no palco: “Teve um momento que considero divisor de águas na turnê. Foi o momento em que passei a contar a minha história no show. Quando minha mãe esteve na estreia, olhei para ela e falei: ‘Estou cantando uma música que fala ‘Eu sou como você que me ouve agora’”. Decidi que ia contar minha história também”.
Assim, lembrou de suas dores, de como veio de uma família marcada pela sobrevivência — cuja avó, por exemplo, resistiu à Guerra Civil Espanhola — e da sua resiliência. “Quando contei minha história, minha iluminadora disse para eu nunca mais deixar de fazer isso, porque faria toda a diferença na minha caminhada e na de quem me ouviria. E assim foi feito. Nos 180 shows, sempre contei essa história. Chegamos ao ponto de salvar a vida de um homem que foi ao show com o intuito de ‘cometer o ato derradeiro’. Felizmente, ele acabou desistindo após essa escuta”, revela.
Ela acrescenta: “Fico até emocionada de lembrar. Isso me ensinou muita coisa sobre o poder da música, a responsabilidade do artista e a força do coletivo. A mensagem tem que ser muito pensada. É para isso que eu quero fazer música. Para mim, é sobre isso. Nunca mais deixei de contar a minha história”.
Esses caminhos levaram também à construção de “Vida Real”: “Entendi que se eu posso sair da minha casa para fazer um show ou gravar uma canção que confortará alguém em algum momento, carregarei esse ofício para o resto da vida como uma grande honra e grata por exercer essa profissão. ‘Vida Real’ é sobre isso”.
Mas, afinal, Ana Cañas apresentará o novo álbum em Fortaleza? A cantora não hesita em confirmar o show na capital cearense. Apesar de ainda não divulgar a data, ela garante que tocará neste ano. A turnê também passa por outras cidades nordestinas, como Natal e Salvador. “Se não tiver show no Nordeste eu não existo. Já estou com saudade”, declara.
Vida Real