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Passagem de bastão fora da curva
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Coordenador do Esportes O POVO. Jornalista curioso sobre os bastidores do mundo da bola e apaixonado pelo jogo nas quatro linhas

Passagem de bastão fora da curva

Juan Pablo Vojvoda se despediu do Fortaleza no início da semana sob comoção geral, o que dá a dimensão do peso para quem vai assumir o cargo
Técnico Vojvoda comemora vitória no jogo Fortaleza x Rosario Central, no Castelão, pela Copa Sul-Americana 2024 (Foto: Mateus Lotif/Fortaleza EC)
Foto: Mateus Lotif/Fortaleza EC Técnico Vojvoda comemora vitória no jogo Fortaleza x Rosario Central, no Castelão, pela Copa Sul-Americana 2024

Apesar das muitas frases feitas usadas para simbolizar um momento do futebol, talvez nenhuma seja tão certeira quanto uma que não se refere às quatro linhas e vale tanto para a vida quanto para o esporte: rei morto, rei posto.

O dirigente que não estiver agradando ao torcedor não será reeleito — ou, em tempos de executivos à frente dos clubes, será desligado —; o treinador que não der resultado vai entregar a prancheta e o boné; e o jogador que receber uma proposta vantajosa irá rumar para novo destino.

E em todos esses casos, seja por decisão do clube ou do profissional, a necessidade de reposição é imediata. Muitas vezes já se demite alguém com o substituto engatilhado. Mas o momento do adeus é tão ou mais importante que a hora da chegada, em que as expectativas estão alinhadas e o otimismo é contagiante. Sempre restará alguém contrariado ou resignado na despedida.

Por isso chamou atenção o "até logo" sob forte emoção de Juan Pablo Vojvoda depois de mais de 1.500 dias à frente do Fortaleza. Quatro anos não são quatro meses, é bem verdade, mas quantos profissionais são demitidos por causa dos resultados ruins e recebem um caloroso abraço da torcida no último contato? Quanto estrangeiros conseguem se conectar com o clube e com a cidade de maneira tão natural e profunda?

Vojvoda não viveu só alegrias no Pici. Amargou derrotas doídas, viu a torcida protestar uma dezena de vezes, "enquadrou" jogadores, discutiu, ficou insatisfeito... Mas rapidamente "zerava". O argentino talvez seja um dos grandes exemplos de que é preciso endurecer, mas sem perder a ternura.

Vojvoda é um idealista nato. Por vezes tachado de ingênuo ou excessivamente corajoso, mas a liberdade das amarras limitantes o fizeram levar o Fortaleza aos maiores patamares da história. Nos momentos de dificuldade, o treinador gostava de repetir que "não há projetos impossíveis, há pessoas impacientes".

O filho pródigo de General Baldissera é paciente. Não se furtava a estender a mão e oferecer novas oportunidades aos jogadores contestados — e pecava por excesso, às vezes. Também contou com bastante paciência do Tricolor e das arquibancadas, passando praticamente quatro anos sem contestação.

Mas os ciclos se fecham, na vida e no futebol. Vojvoda aproveitou enquanto pôde as idas à praia — inclusive em frente à própria residência —, à igreja (quase) todo dia 13, a Canindé, aos shoppings, aos restaurantes... Quarenta e oito horas depois, o novo dono do trono já estava escolhido. A velocidade é uma necessidade, não escolha. Mas Juan Pablo deixa um peso tão grande quanto o legado para quem sentar no banco de reservas. A passagem de bastão do maior ídolo do Fortaleza deixa isso claro.

Foto do Afonso Ribeiro

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