Locutor esportivo da Rádio O POVO CBN. Radialista formado e acadêmico em jornalismo pela Universidade Estácio, já trabalhou em diversas rádios de Fortaleza, atuando como narrador e em outras funções, incluindo a parte técnica. Esta coluna trata sobre mídia esportiva e analisa os avanços das transmissões esportivas em todas as plataformas
Foto: Marco Galvão / Divulgação / Goat
Depois de décadas na Globo, Odinei Ribeiro assinou com o canal Goat
Foram quase 20 anos narrando grandes jogos e momentos históricos do esporte brasileiro no maior grupo de comunicação do país. Mas, desta vez, Odinei Ribeiro não estava diante de um microfone para contar uma partida. Em mais de uma hora de conversa, leve, franca e cheia de reflexões, ele parou para falar sobre escolhas, tempo, perdas, recomeços e a decisão de deixar o Grupo Globo depois de quase duas décadas. Uma entrevista que vai além da saída de uma emissora e ajuda a entender como a própria mídia esportiva também vive um momento de transição.
“Por todos os ângulos para você curtir.”
Quem acompanha transmissões esportivas no Brasil já ouviu essa frase incontáveis vezes, quase sempre no replay de um gol. O bordão virou marca registrada, atravessou gerações, plataformas e campeonatos. Mas, em 2026, o autor da frase mais repetida dos replays decidiu mudar o enquadramento da própria vida.
Odinei Ribeiro deixou o Grupo Globo no início do ano, encerrando um ciclo de mais de duas décadas dentro do mesmo ecossistema — da afiliada em Santos aos canais SporTV, passando por Copas do Mundo, finais de Libertadores, Olimpíadas e jogos que moldaram sua identidade profissional. A saída não foi motivada por crise, conflito ou falta de espaço. Foi escolha. E, sobretudo, reflexão.
“Não teve briga, não teve trauma. Eu saí em paz. Foi uma decisão muito pensada”, contou. “Chega um momento em que você percebe que o tempo não espera. Ou você toma as rédeas da sua vida, ou a vida decide por você.”
Esse processo começou longe das cabines. A pandemia, a perda dos pais, o falecimento de amigos próximos e a percepção de que os ciclos pessoais estavam sendo adiados fizeram Odinei repensar prioridades. “Tem uma frase dura, mas real: chega uma fase da vida em que você vai mais a velório do que a festa de criança. Aquilo me pegou muito”, disse. “Eu tinha realizado muitos sonhos profissionais, mas percebi que ainda tinha sonhos pessoais engavetados.”
Entre eles, o desejo antigo de morar fora do Brasil. Não como fuga, mas como experiência de vida. “Eu sempre fui muito focado na carreira. Sempre pensei: ‘depois eu vejo isso’. Só que o depois chega”, refletiu.
O rompimento com a Globo foi planejado, respeitoso e sem destino imediato. Odinei saiu sem contrato assinado, apostando no próprio capital simbólico, na trajetória construída e na força do digital. “Eu não quis sair já pulando para outra estrutura grande. Quis me ouvir, entender o mercado e entender o que eu queria de verdade.”
Pouco tempo depois, veio o convite do canal GOAT para integrar a cobertura da Copa do Mundo de 2026, com base nos Estados Unidos. Não para narrar jogos — o canal não tem os direitos —, mas para apresentar, reportar, analisar, contextualizar e produzir conteúdo antes e depois das partidas. Comunicação em estado puro. “Hoje, não é só sobre narrar. É sobre contar histórias, gerar conversa, criar comunidade.”
A movimentação de Odinei dialoga diretamente com o momento da mídia esportiva. Profissionais experientes têm deixado estruturas tradicionais para atuar de forma mais híbrida, conectados ao digital, às redes sociais e a projetos menos engessados. Ele próprio reconhece que já atravessou praticamente todas as fases da comunicação esportiva no Brasil. “Eu peguei rádio AM, FM, TV aberta, TV por assinatura, pay-per-view… e agora estou no YouTube. Não dá para tratar o digital como algo menor. Ele é parte do jogo.”
Nesse cenário, o bordão “por todos os ângulos” ganha um novo significado. A frase não nasceu como estratégia de marketing, mas como valorização da linguagem televisiva e do trabalho coletivo. “Era uma forma de respeitar quem estava atrás da câmera, o operador de replay, o coordenador. Eu só traduzia aquilo em palavras”, explicou. Um estalo espontâneo que virou identidade — assim como a carreira: construída sem atalhos, mas com escuta, observação e humildade.
Ao falar das novas gerações, Odinei faz um alerta que soa como conselho de quem já percorreu o caminho. “Nunca houve tantas oportunidades, tantas plataformas, tantos estilos. Mas visibilidade rápida não é sinônimo de maturidade”, afirmou. “Estar numa grande escala não significa ser grande. Ser grande é entender o jogo, respeitar a história e tratar cada transmissão como se fosse a mais importante da carreira.”
Hoje, longe da rotina exaustiva de escalas semanais, ele corre mais do que antes — atrás de patrocinadores, projetos, reuniões e ideias. A diferença é o controle do tempo. “Antes, minha vida precisava caber na escala. Agora, a escala é que precisa caber na minha vida.”
No fim das contas, a saída de Odinei Ribeiro da Globo não representa um ponto final. É uma vírgula bem colocada. Uma mudança de plano, de ângulo e de ritmo. Porque, às vezes, o maior gol da carreira não está no replay — está na coragem de mudar o jogo enquanto ainda dá tempo de curtir.
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