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Audiência, identidade e pertencimento: o poder do regional
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Locutor esportivo da Rádio O POVO CBN. Radialista formado e acadêmico em jornalismo pela Universidade Estácio, já trabalhou em diversas rádios de Fortaleza, atuando como narrador e em outras funções, incluindo a parte técnica. Esta coluna trata sobre mídia esportiva e analisa os avanços das transmissões esportivas em todas as plataformas

Audiência, identidade e pertencimento: o poder do regional

O futebol regional deixou de pedir espaço. Ele passou a ocupar. Em um cenário de novas plataformas, pulverização de telas e descentralização das transmissões, competições locais mostram força, audiência e relevância — e começam a exigir outro olhar da mídia esportiva
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Transmissões da Copa do Nordeste são case de sucesso (Foto: Lucas Emanuel/FCF)
Foto: Lucas Emanuel/FCF Transmissões da Copa do Nordeste são case de sucesso

Durante muito tempo, o futebol regional foi tratado como conteúdo secundário na mídia esportiva brasileira. Limitado ao próprio estado, servia para “preencher grade”, testar horários ou ficava restrito a um bloco no jornal local. Quando não havia esforço das afiliadas, o torcedor era empurrado para mais um jogo do eixo Rio–São Paulo. Esse cenário começou a mudar em 2013, quando o extinto Esporte Interativo levou a Copa do Nordeste para todo o Brasil. Ali, algo fora do eixo deixou de ser coadjuvante e passou a disputar protagonismo, dentro e fora da região.

Hoje, esse protagonismo se fortalece no ambiente digital. Campeonatos estaduais que sofreram por anos com baixa visibilidade encontraram novas vitrines e passaram a registrar números relevantes. O Campeonato Cearense e o Pernambucano, exibidos no Canal Goat, provaram que existe público quando o produto é bem distribuído. O Carioca ganhou novo fôlego na GE TV, enquanto o Paulista encontrou na CazéTV uma plataforma capaz de dialogar com públicos diferentes, rompendo o modelo tradicional de transmissão.

Um dos movimentos mais simbólicos desse momento é a renovação da Copa do Nordeste em TV aberta para 2026, liderada pelas afiliadas do SBT na região, sem a participação direta da matriz em São Paulo. É um recado claro: a força da competição está no interesse local, na audiência regional e na capacidade das emissoras nordestinas de produzir, vender e sustentar o próprio produto. O Nordeste não apenas aparece — ele assume o controle da narrativa.

Mais do que os grandes clássicos, chamam atenção os números de jogos considerados de “menor expressão”. Partidas do quadrangular da permanência do Campeonato Cearense, exibidas pela FCF TV, chegaram a registrar quase 10 mil aparelhos conectados simultaneamente. Um dado que desmonta a velha lógica de que só clubes de massa geram interesse. O público existe. O que faltava era acesso e respeito ao produto.

Esse novo cenário expõe uma falha histórica da mídia esportiva: o torcedor regional sempre esteve ali. O que não existia era prioridade. A descentralização das transmissões permitiu que clubes menores, cidades do interior e competições ignoradas ganhassem visibilidade. O que antes dependia do “aval do eixo” hoje se sustenta pela própria comunidade que consome, comenta e compartilha.

Para a mídia esportiva, o recado é direto: o regional não é mais complemento — é ativo estratégico. Ele engaja, fideliza, gera números e constrói identidade. Em um mercado fragmentado, falar com quem está perto pode ser mais eficiente do que tentar alcançar quem está longe.

O desafio agora é transformar toda essa visibilidade em faturamento sustentável. Apesar do crescimento de audiência e do protagonismo conquistado, os campeonatos estaduais do Nordeste ainda operam longe do poder econômico do eixo Rio–São Paulo. E aí entra uma responsabilidade direta das federações: profissionalizar a comercialização do produto. Vender direitos de transmissão de forma estratégica, estruturar melhor os pacotes de patrocínio, valorizar placas de publicidade, ativações digitais e ações integradas com emissoras e plataformas são passos fundamentais. Audiência sem monetização vira oportunidade perdida. Se o futebol regional provou que tem público, cabe às entidades transformar esse interesse em receita, fortalecendo clubes, competições e toda a cadeia que sustenta o esporte fora do eixo.

Quando o regional vira protagonista, não é só o futebol que ganha. Ganham as emissoras locais, os profissionais, os clubes e, principalmente, o torcedor. Talvez a grande lição seja esta: o futuro da mídia esportiva não está apenas nos grandes palcos nacionais, mas também — e cada vez mais — nos gramados que sempre estiveram à nossa volta.

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