Ana Márcia Diogénes é jornalista, professora e consultora. Mestre em Políticas Públicas, especialista em Responsabilidade Social e Psicologia Positiva. Foi diretora de Redação do O POVO, coordenadora do Unicef, secretária adjunta da Cultura e assessora Institucional do Cuca. É autora do livro De esfulepante a felicitante, uma questão de gentileza
Foto: Ilustração AdobeStock
Violência contra a mulher
Caros leitores, trago uma afirmação que pode parecer polêmica, mas que é, infelizmente, retrato de uma sociedade machista como a que ainda temos: se a mãe da maioria de nós tivesse decidido matar os filhos devido à traição do nosso pai, não estaríamos vivos para ler esta minha coluna de hoje. E nem eu a teria escrito.
A história do cotidiano – principalmente na era das redes sociais - registra inúmeros casos de irmãos que conheceram meios-irmãos no velório do pai, na disputa da herança, no relativamente recente teste de DNA, no rosto semelhante de um desconhecido, na descoberta tardia de assédio à empregada doméstica.
Quase nenhum espaço da história é destinado ao registro da dor silenciosa da mulher que espera o marido infiel nas madrugadas. Da companheira que é classificada como doida ou exagerada quando diz estar desconfiando de algum relacionamento na rua. De quem tem que engolir que a mancha de batom foi cumprimento da mulher de um amigo.
Este arrazoado é para trazer aqui a enorme indignação que sinto – e que toda mulher deveria sentir, assim como os homens (poucos?) que prezam pela igualdade de direitos – sobre o absurdo caso que aconteceu em Itumbiara, interior de Goiás. Um homem matou os dois filhos, cometeu suicídio em seguida, e teria deixado uma carta em que culpava a esposa de traição, tentando justiçar a tragédia que unicamente ele gerou.
Não escrevo o nome deste homem, que é para não midiatizar o morto que agiu com extrema covardia. Se havia um problema com o casal que, segundo as notícias estava separado há cinco meses, o entendimento na conversa ou na justiça deveria ser entre os dois. Dizem que ele é que a traía.
Independentemente de haver ou não uma traição de quem quer que seja, o que os filhos têm a ver com isso? Um pai que decide matar os próprios filhos alegando traição, não os ama o suficiente para separá-los de um conflito conjugal. E a sociedade local, que hostilizou a mãe durante o velório de um dos filhos, não entende nada de sentimentos. Quem nega a uma mãe a última despedida a um filho tem o coração mais gelado que os polos sul e norte juntos.
Precisamos urgentemente levantar uma bandeira na política pública contra a misoginia, contra o ódio e tentativa de controle de nossas almas e corpos que homens querem impor às mulheres. Partidos deveriam perder minutos no tempo eleitoral caso se posicionem contra a mulher, religiões que incentivam o rebaixamento feminino como categoria humana deveriam ser investigadas, perfis que incentivam o ódio contra as mulheres deveriam ser banidos.
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