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Escritora. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). É autora de Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras)

Ana Miranda crônica

Manada perdida

Tipo Crônica
Ilustração de Carlus Campos para coluna de Ana Miranda (Foto: Carlus Campos)
Foto: Carlus Campos Ilustração de Carlus Campos para coluna de Ana Miranda

Não sei dizer por que motivo esta história me tocou tanto. Um frio no peito, uma alegria sensível a lágrimas, suspense, a sensação de sonho. Faz lembrar até Clarice, que falava sempre em perder-se. Mas nem sei se a manada está perdida, se estou perdida eu, se estamos nós todos perdidos. Nós, o Brasil. Ou se estamos a caminho.

Para quem não sabe a história, vou contar. Na província de Xishuangbanna, região de Yunnan, fronteira da China com Vietnam, Laos e Mianmar, viviam em uma reserva algumas manadas de elefantes asiáticos. Eram menos de duzentos, na década de 1980, hoje são mais de trezentos indivíduos. Felizes, protegidos, se amaram e se reproduziram, deixando aos poucos de correr o risco de serem extintos.

Subitamente, um grupo de quinze elefantes partiu de suas florestas ao sul da China e caminhou nas planícies, entre bosques de bambu, campos de ginseng, horquilha dourada, angélica. Passou por elefantes de pedra, templos budistas, moças lavando os cabelos no rio, cruzou com cavalos, camelos, gatos-leopardos, veados, ursos, lobos. Símbolo da paz, da boa sorte, um panda-gigante atravessou seu caminho, mas os elefantes não pararam. Macacos os observavam do alto dos galhos, rindo. A manada cumpriu cerca de quinhentos quilômetros no rumo norte. Por que o norte? Por que partir?

Ninguém, nem mesmo os zoólogos que os observam, os sábios que os amam, sabem a razão de os elefantes abandonarem seu território e partirem para uma travessia tão longa, penosa, arriscada. Precisam lutar para encontrarem comida, atravessam valas de esgoto, rodovias, avenidas, riachos. Com profundo senso de solidariedade ajudam uns aos outros a atravessar colinas, desvãos. Dizem que, nos últimos anos, aqueles elefantes já iam se acercando das cidades, pois a vegetação de seu habitat estava sendo devastada, as plantas comestíveis dando lugar a plantas que eles não podiam comer.

E eles continuam caminhando. Bonitos, pesados, marrons, lisos, enlameados ou não, encantadores com suas trombas e orelhas que parecem asas. Os três filhotes fazem o espetáculo todo o tempo filmado por drones e acompanhado por milhares de chineses, que os filmam de suas janelas, a passar na rua ao som de sirenes dos carros policiais. O mistério é que ninguém consegue mudar o itinerário dessa caminhada, mesmo bloqueando a passagem com caminhões e rastros de comida. Obstinados, os elefantes sabem para onde querem ir. E não param.

Entram em aldeias, cidades, cruzam estradas, invadem cozinhas, celeiros, devoram plantações de milho, esvaziam tanques d'água, derrubam portões. A lavoura fica esmagada por suas patas poderosas. Um deles bebeu vinho e se perdeu da manada. Moradores de aldeias, receosos, bloqueiam caminhos para tentar mudar o rumo da manada. Uns abandonam suas casas.

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Os elefantes, sabemos, têm uma memória extraordinária. Talvez caminhem em busca de uma lembrança boa, de algo perdido em suas vidas. Após quinze meses de caminhada, finalmente pararam, exaustos, deitaram na relva seca e lama, dormiram, descansaram. Amanhã vão acordar e prosseguir, afinal, como dizia Clarice, perder-se é caminho.

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