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Escritora. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). É autora de Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras)

Ana Miranda crônica

As vacas holandesas

Tipo Crônica
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Na ala holandesa da família, quase todos são vegetarianos, ou, pelo menos, lacto-vegetarianos, ou lacto-pisco-vegetarianos, ou lacto-pisco-ovo-vegetarianos, títulos dados a quem é vegetariano, mas come frutos do mar, ovos, derivados do leite. Há três anos não como carnes, e não sinto nenhuma falta. Mas ainda não consegui parar de comer queijo, mesmo sabendo que as vacas são uma imensa fonte de poluição do nosso planeta. Poluem mais do que os carros! E agora, fiquei sabendo que as vacas holandesas também destroem a minha amada floresta amazônica e meu amado Cerrado.

Não as inocentes vacas, lindinhas, malhadas, pastando docemente num prado florido diante dos moinhos de vento. Elas não são culpadas da ambição humana. Jan, meu cunhado holandês, psicanalista, enviou-me uma reportagem sobre as vacas holandesas e a Amazônia. As vacas holandesas, diz Joost de Vries, autor da reportagem, são alimentadas com soja brasileira. Grandes navios atravessam o oceano levando cargas desse grão que é produzido no sul e no centro do país. Mas o plantio de soja pirata está devastando pedaços da Amazônia que são sacrificados. Também partes cada vez maiores do Cerrado estão sendo devastadas para o plantio de soja. Somos os maiores produtores de soja do mundo e, quanto mais produzimos, mais devastamos. "Todo mundo diz que os fazendeiros estão engolindo a floresta. Não é verdade", diz um sojeiro no Pará. E ele aponta para um terreno desmatado onde a floresta está brotando, se refazendo. "Temos de defender constantemente nosso país contra a floresta". Que mentalidade de doer!

Os produtores de soja que abram os olhos. "Com a crescente demanda por alimentos saudáveis, urbanização de rápido crescimento e mudanças climáticas, não podemos mais confiar nos sistemas de produção de alimentos do passado", disse o engenheiro Peter van Wingerden. Ele construiu na Holanda uma fazenda flutuante experimental. É toda cercada de vidro, com árvores fabricadas, painéis solares, uma coisa de outro planeta. Fica ancorada em Roterdã, e tem quarenta vacas leiteiras a bordo, ordenhadas por robôs - que coletam os dejetos e os transformam em combustível e fertilizantes.

Um dos meus programas favoritos em Amsterdã era saborear queijos. Ah, eles sabem fazer queijos. Há centenas de tipos. O famoso Gouda, os picantes Edam e Leiden, o Maasdammer com gosto de nozes, o Boerenkaas, feito de leite natural... tem um que é feito com o leite tirado durante o verão, quando as vacas ficam soltas no pasto. Uns têm gosto de madeira, pois são maturados sobre tábuas. Uns vêm com cristais, outros com ervas, com trufas negras, alecrim, até comprei por engano um queijo com urtiga e estava um gostoso exótico. Para ser mais ecológica, passei para os queijos de ovelha, também deliciosos.

Mas, acabei sabendo que as ovelhas, tão mimosas, tão meigas, tão fofas, poluem o nosso planeta, não tanto como as vacas, pois são em menor número. Em alguns países, como na Nova Zelândia, estão procurando soluções para o gás metano saído das ovelhas. As cabras poluem, e as búfalas. Só me resta, agora, o queijo de castanha.

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