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Escritora. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). É autora de Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras)

Ana Miranda crônica

Neve no Ceará

1408anaMIRANDA (Foto: 1408anaMIRANDA)
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Quando voltei, estava anunciado o Dia Mais Frio do Século, com a sensação de vinte e cinco graus negativos. Uma massa de origem polar. Chegaram a inventar que ia nevar no Rio de Janeiro. Os fabricantes de notícias falsas iam acabar espalhando que cairia neve no Ceará. Fiquei imaginando a Praia de Iracema toda branca, os sertões glaciais, carnaúbas pingando estalactites de gelo... Ri de mim mesma.

Se eu fosse passar o Dia Mais Frio do Século no Ceará, bastava um abano e uma água de coco. Mas eu ia passar esse memorável dia na Pousada dos Anjos, no cume de uma serra perto de Cunha, um dos lugares mais frios do sudoeste de nosso país. Eu, que sou tão friorenta, via imagens de cidades do sul cobertas de neve, veladas por neblina e sob chuva de flocos alvos; geadas, granizos, árvores regeladas, a água do cachorro virada pedra, telhados brancos, lagos congelados, carros atolados em mantos de neve... Trazia na mala apenas roupas de verão, vinha da Holanda e, por um imprevisto, fui para a linda pousada onde ia ser o casamento de uma sobrinha.

Tomei emprestadas com minha irmã umas roupas de frio e um casaco daqueles com capuz peludo. Diverti-me com o frio, eu dormia debaixo de seis cobertas, ao lado de um aquecedor, na casa havia aquecedores e lareiras, o frio de dia entrava agradável, puro nos pulmões, em uma bela paisagem de araucárias - mas eu pensava sempre no padre Lancelotti, nas pessoas que vivem nas ruas mais gélidas que nunca, sem agasalhos, sem paredes, sem aquecedores, sem comida...

Mandei uma foto para o Theo; minha irmã, a sobrinha e eu, as três parecíamos esquimós. O Theo estava mesmo entre os esquimós, em Winnipek, Manitoba, suando, de bermudas e tomando cerveja geladíssima. No Canadá a temperatura, dias antes, chegara a cinquenta graus centígrados.

E fui fazendo as contas: em um só dia na China choveu o equivalente a oito meses; incêndios na Grécia e máxima de 55 graus; incêndios na gélida Sibéria; enchentes na Europa; no Pantanal forte seca e o rio Paraná secando; aumento das emissões de carbono... E dizem que ainda vamos ter saudades destes dias. Essa semana um grupo intergovernamental de especialistas em evolução do clima publicou um alarmante documento. Assinado por 234 cientistas de diferentes países, mostra como a situação se agravou desde o último estudo que eles fizeram, há oito anos. E pela primeira vez ficou provado que as atividades humanas, e não as variações naturais do clima, são culpadas pelo aquecimento e catástrofes ocorridos nos últimos anos. Sim, somos nós.

Pensei, devo voltar correndo para a minha praia aconchegante, preservada, mas ao ler o resumo do relatório soube que o Nordeste é hoje uma das regiões do planeta onde se vê mais nitidamente a influência do aquecimento global. O secretário geral da ONU, António Guterres, disse que este relatório "é um código vermelho para a humanidade. Os sinais de alerta são ensurdecedores e a evidência é irrefutável; as emissões de combustíveis fósseis e o desmatamento estão sufocando nosso planeta e colocando bilhões de pessoas em risco imediato". E ele nem é comunista.

 

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