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Escritora. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). É autora de Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras)

Ana Miranda crônica

As florestas de Pompeu

CARLUS CAMPOS (Foto: CARLUS CAMPOS)
Foto: CARLUS CAMPOS CARLUS CAMPOS

Ah, se tivéssemos ouvido o senador Pompeu o Ceará seria hoje um estado repleto de bosques, matas entremeando plantios, florestas frondosas. Nosso clima seria mais fresco e o ar mais puro, teríamos mais chuvas, húmus, nuvens, alimentos, mais bem-estar e beleza, madeiras, medicinas, mais vida animal e vegetal, bancos genéticos, rios mais caudalosos, fertilidade da terra...

Teríamos, se seguíssemos as campanhas de Pompeu de Sousa, açudes por todo lado, espelhos de água refrescante, reservas com água recolhida das chuvas, água para a agricultura, para o consumo humano, vegetal e animal. Ele nos dizia, já no século 19, que devemos progredir sem destruir a natureza. A ausência das matas, pregava Pompeu, traz secura à atmosfera, esterilidade aos campos, desterro e destruição a um país. E seus alertas se desdobravam em textos convictos, alarmantes - e belos:

"Inútil Cassandra! Debalde havemos demonstrado com os princípios da ciência, com a autoridade dos sábios, com a experiência d'outros países, e até com a nossa própria, que o pernicioso sistema de roteamento de matas, o incêndio dos campos no sertão, apressarão o termo de completa ruína de nossa terra, e deixarão a nossos vindouros solidões, e ruínas, e uma maldição eterna à nossa memória".

Ele acreditava, como os iluministas de seu tempo, como Humboldt, como Goethe, como Rousseau, no poder dos seres humanos de interferir na natureza. Creio que para o bem e para o mal. Grupos humanos tornam florestas em lugares desérticos; outros tornam desertos em locais férteis, frescos e agradáveis. Ele tentou educar agricultores, criadores, governantes, fez campanhas incansáveis a pregar suas ideias ecológicas - foi o primeiro por aqui a usar o termo "ecologia". Pregou a arboricultura e o manejo correto de plantas; a preservação de florestas e mananciais e o reflorestamento do que já fora devastado. Transmitia seu pensamento por meio de artigos de jornal, livros, relatórios, discursos no Senado. Absorto na contemplação da natureza, sempre em conexão com os seres humanos, usava muito de seu tempo medindo e anotando. Desenhava quadros com dados sobre índices de chuvas, de temperatura, épocas de estio, ao longo dos anos, fazia quadros comparativos. Usava o que a ciência podia alcançar, lia os naturalistas, os científicos, os diários de viagens. E foi bem claro, em tudo o que pensava. E poético.

"Antigamente", fala das serras cearenses, "à tarde, pela manhã até alto sol, e principalmente à noite, a névoa descia dos píncaros, ou levantava-se das matas, e brejos, e estendia-se sobre a planície e habitações, envolvendo tudo debaixo de um imenso tocado de vapor úmido. A temperatura em todo tempo baixa, e desde as 4 horas da tarde o frio começava a incomodar aos forasteiros: hoje apenas sente-se à noite um ar mais fresco".

Mas, infelizmente, no Ceará não seguimos as ideias do Pompeu, não plantamos matas e, a cada dia, desmatamos. Nascido em 1818, na cidade de Santa Quitéria, Tomás Pompeu de Sousa Brasil, trisavô da maravilhosa escritora Angela Gutiérrez, foi uma dessas explosões de inteligência cearense.

 

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