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Escritora. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). É autora de Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras)

Ana Miranda crônica

Números tolos

Tipo Crônica
ANA MIRANDA (Foto: Carlus Campos)
Foto: Carlus Campos ANA MIRANDA

Ah meus setenta anos! Dizia minha mãe, que tinha mais de cem. Assim aprendi a aspirar pela idade que tenho, ela é um presente da vida. Quarenta, cinquenta, sessenta... e agora fiz setenta anos. O menininho, neto de minha amiga, perguntou: Mas você começou do zero? Sim, fui contando de um em um: dois, seis, 23, quarenta, cinquenta, 67...

Minha sobrinha, que está passando férias comigo, disse que eu tenho ainda a vida inteira dela para viver, ela tem trinta anos, é muito tempo se for vivido com dedicação e intensidade. Com gratidão pela vida, com amor por si mesmo e pelo mundo etc. etc. Pode-se até começar uma vida nova, morar numa praia, ter uma nova profissão, um novo amor... Assim, não tenho setenta anos, tenho trinta.

Sinto-me na plenitude. Hoje as pessoas de setenta anos são bem mais jovens do que as da geração de meus pais. Não é verdade que seja oficial, mas é verossímil: a nova classificação das idades seria: pessoas de 18 a 65 anos são jovens; de 65 a oitenta, meia idade; de oitenta a cem anos, idosos; e acima de cem, os longevos. No século 19, idosos eram a partir de cinquenta anos.

Dia destes vi uma revista científica dedicada ao tema das idades. Havia um cartaz que se podia abrir, e lá estavam umas nove fotomontagens de um mesmo homem. Na primeira foto ele era um menino de, digamos, uns cinco anos, e a legenda abaixo dizia: 12 anos. Na segunda foto ele parecia ter 12 anos, e na legenda: 22 anos. Na terceira, semelhava ter vinte anos e a legenda dizia 55 anos. Assim por diante, até a última foto em que ele tinha o aspecto de um homem de cinquenta anos e a legenda dizia que ele tinha 130 anos. E os textos da revista eram, em resumo, explicações dessa teoria sob o ponto de vista de alguns cientistas: uma pessoa nascida nos dias de hoje, se seguir os avanços do conhecimento em termos de saúde do copo e da mente, alimentação, exercícios físicos e mentais (deve ser ler livros), psicologia, medicinas, modo de vida, meio-ambiente em que vive, etc. etc. terá esse padrão de envelhecimento e essa longevidade.

Mas não é fácil ter idade, a nossa querida Rachel, sempre tão sincera, falava com muito humor sobre os horrores de ser velha. A velhice é implacável, insidiosa, uma das maiores crueldades da natureza... "Aos moços dou um conselho, não fiquem velhos", ela diz assim, numa crônica. Um médico falou a um amigo meu: Quando você faz sessenta anos, acorda de manhã e não está sentindo nada de errado, pode saber que você morreu. Risos, muitos risos, mas as mazelas aparecem: um joelho que dói, um ombro, um dedo, um pé... Sábio é incorporar ao cotidiano o comportamento saudável em harmonia com o prazeroso, e os velhos têm mais sabedoria.

E a sabedoria nos ensina a esquecermos a idade, a deixarmos de ficar fazendo contas e criando normas, a vida não é uma matemática, esquecer padrões e regras, esquecer os números que são apenas uma convenção tola, esquecer os números tolos, e viver como... como os passarinhos, como as flores, as abelhas, os macacos, simplesmente ir vivendo sem fazer contas, naturalmente ir vivendo sem os números tolos, vivendo...

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