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Escritora. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). É autora de Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras)

Ana Miranda crônica

Adeus às armas

Tipo Crônica
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 Toda a linha Taurus em três parcelas pelo preço à vista, Pistola Taurus calibre 7,65 com pente para 15 tiros mais um na agulha... Eu ia tomar milk shake nas lojas de departamentos, e lembro que via seções de artigos de esporte oferecendo armas, ficavam expostas nas prateleiras ao lado das varas de pesca, anzóis, redes para caçar borboletas, armadilhas para passarinhos... e armas para matar.

Propaganda por todo lado oferecia armas de fogo. Qualquer pessoa maior de idade podia comprar uma pistola e levar no carro, na bolsa, guardar numa gaveta ao lado da cama, levar ao cinema ou onde fosse. Meu pai teve uma espingarda de caça. Eram tantas as pessoas armadas que uma lei obrigava casas noturnas, estádios, até ensaios das escolas de samba a terem na entrada uma chapelaria para guardar pistolas e revólveres. Parecia quase um direito.

O Cobrador, Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca, Cidade de Deus de Paulo Lins e outros livros prenunciavam a violência que chegava em avalanche, numa sociedade a cada dia mais desigual, injusta, oprimida, com uma população abandonada à própria pobreza. Era preciso se defender, diziam - usavam o medo para ganhar dinheiro. Empresas que fabricavam armamento faziam doações milionárias para campanhas políticas, com interesse subalterno: manter livre a venda de armas.

Como símbolo, ou como realidade, não há um lado bom nas armas. Elas são o mal. São a pulsão de morte. Destruição. O cheiro de pólvora é lágrima e tragédia. Quanto mais armas, mais violência. Pessoas comuns perdem o controle e atiram, numa briga de vizinhos; crianças encontram a arma do pai numa gaveta e atiram; há acidentes com pessoas que limpam a arma; ensejo a suicídios; adolescentes vão armados para a escola e ameaçam professores; balas perdidas atravessam janelas e matam crianças. Qual é a mãe, numa comunidade, que se sente segura ao deixar o filho numa escola? Assaltantes entram em casas para roubar as armas. O limite entre a arma legal e a ilegal é tênue.

E é muito fácil matar com uma arma de fogo, basta mover um dedo. Um homem armado até os dentes é um covarde, disse Ghandi. A força gerada pela não violência é infinitamente maior do que a força de todas as armas inventadas pela engenhosidade humana. É simplesmente um horror viver numa sociedade armada, é a brutalidade, a barbárie. Mas as armas eram livres, no Brasil.

As mortes por armas de fogo subiam de modo tão assustador que foi preciso tomar uma medida: aprovaram a Lei do Desarmamento. Dizem pesquisas que ela salvou 160 mil vidas. Não acabaram as mortes, mas pararam de aumentar. Há apenas dois modos de resolver um litígio: pela lei ou pela força, dizia Maquiavel. Quando se decide pela força, temos o terror. Não há paz. Agora vemos um movimento para armar a população brasileira, liderado pelo militar que ocupa a presidência. "Fui treinado para matar"; "um povo armado jamais será escravizado", "comprem fuzis, comprem fuzis", ele incita. Nunca na história do Brasil houve tantas armas nas mãos de pessoas comuns. Basta ter um pouco de inteligência para ver as terríveis consequências dessa pregação.

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