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Escritora. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). É autora de Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras)

Ana Miranda crônica

O sonho de Anésia

Tipo Crônica
1809anaMIRANDA (Foto: 1809anaMIRANDA)
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Tivemos o Dia da Alfabetização e a efeméride me lembrou um dos momentos felizes de minha vida, quando ensinei Anésia a ler. Era em São Paulo, ela morava num subúrbio e vinha todos os dias trabalhar no lugar onde eu morava. Tomava dois ônibus para ir e dois para voltar. Perguntei: Mas, Anésia, se você não sabe ler, como sabe quais são os seus ônibus? Eu sei pelo número, ela respondeu, era mais fácil decorar os números, sem significados, sem sons, apenas formas. Anésia sonhava aprender a ler.

Eu disse que ia lhe ensinar. Ela ficou pálida, achou que não ia conseguir, e eu logo lhe dei uma folha de papel e a fiz escrever o seu nome, sobre pontilhados. Ela rabiscou trêmulas linhas, as mais maravilhosas letrinhas que formavam o nome: A N É S I A. Está vendo? É fácil! E quase chorando ela disse que ia tentar. Fui atrás de cartilhas, algo que me desse um método, mas acabei eu mesma criando o método, pois ela não sabia nem segurar um lápis. Foram páginas e mais páginas de pontilhados que ela devia cobrir. Ziguezagues, sequências de ondas, de curvas... Depois as letras, as sílabas, as palavras, as frases simples, as mais complexas...

Todos os dias Anésia levava o material e na manhã seguinte chegava abraçada ao caderno, trazia o dever de casa feito. Com imenso sacrifício, cansada, pois ao chegar em casa ainda tinha de cozinhar, lavar, passar, educar os dois filhos adolescentes. Por vezes dormia apenas quatro horas numa noite, vinha cochilando no ônibus, sempre abraçada ao caderno. Já sabia ler e escrever o nome do ônibus - ela falava ôbinus, foi difícil aceitar a forma nova.

Aprendeu a ler em pouco tempo, e fui lhe dando cultura geral: mostrei-lhe um atlas, ela nunca tinha visto um mapa do Brasil, nem a forma redonda do planeta, nem sabia que havia muitos outros países, a Via Láctea e foi aprendendo, fascinada, ou incrédula. As constelações, a democracia, as contas, o tempo colonial, o do Império, os povos indígenas de quem ela descendia, os povos africanos de quem ela também descendia... As injustiças sociais, o capitalismo, a prosa e a poesia... Era um mundo imenso que se mostrava, e ela dizia que nunca imaginara estar tudo ali naqueles... livros. E Anésia passou a ler livros.

Um dia chegou, feliz, disse que seus filhos haviam comentado que ela sabia mais que eles e sua letra era melhor do que a letra deles. Dava aulas aos filhos. Anésia tinha uns cinquenta anos. Seus olhos antes sombrios se encheram de luz e força. Ela se matriculou numa escola noturna e passou a fazer o ensino fundamental, com o mesmo sacrifício.

Um dia eu ia embora, nos abraçamos, e ela me prometeu terminar os estudos. Tempos depois voltei a São Paulo e Anésia veio me visitar. Com a família, em seus melhores trajes, cheirando a flores, sorrindo. E ela disse: Viemos aqui para lhe agradecer. Mas era eu quem tinha a agradecer, aquela iluminação de um ser tão puro e honesto, como era Anésia, me dava orgulho de mim mesma, um pequeno gesto, mas emocionante. Anésia terminaria o segundo grau e se sentia completa, segura, como se tivesse renascido. Ler, ela disse, é existir.

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