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Ano de Oxum
Foto de Ana Miranda
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Escritora. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). É autora de Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras)

Ana Miranda crônica

Ano de Oxum

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Tipo Crônica
0701anaMIRANDA (Foto: carlus campos)
Foto: carlus campos 0701anaMIRANDA

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A linda pintura de Djanira, "Orixás", vai voltar à Sala dos Espelhos no palácio do Planalto, anunciou Janja, nossa querida Primeira Dama. A notícia veio acalmar meu coração, eu tinha sofrido com a retirada do quadro por hostilidade religiosa. Sacerdotes afros anunciam que este ano de 2023 vai ser regido por Oxum. E Oxum é um dos orixás do quadro pintado por Djanira, ou irmã Teresa do Amor Divino, seu nome de carmelita. Mesmo sendo freira, muito religiosa, cristã, Djanira teve coração e mente abertos para compreender a beleza dos orixás e da harmonia entre religiões. Que venha essa paz.

E Djanira tinha razão, os orixás, ou Òrìsàs, são entidades sagradas realmente bonitas, não apenas pelas vestimentas coloridas, rendadas, mas pela graça de seus traços interiores, que representam a natureza; não são sofredores ou mártires como a maioria de nossos santos católicos, a literatura de Flos Sanctorum é de arrancar lágrimas; os orixás lembram mais os deuses do Xintoísmo, espíritos da natureza e protetores ancestrais. Orixás são a essência da natureza, trabalharam na criação do mundo e existem para nos ensinar a viver, a cuidar da Terra. Uns vieram do alto, encarnaram-se em humanos; outros eram humanos que se tornaram divindades por sua ilustração ou seus poderes sobre vento, chuva, fogo, árvores... sobre nossa vida na pesca, lavoura, maternidade, nas guerras...

Faz anos, em um terreiro na Bahia, uma Ialorixá jogou búzios para mim, e os búzios disseram que Oxum é minha mãe. Mãe adorável. Ela é a mãe das águas doces, dos rios e cachoeiras, também da riqueza material e espiritual. Ela é a sabedoria e o poder feminino, deusa do amor. Mãe gentil, cuida de nós desde a concepção, o parto, até completarmos sete anos de idade, quando somos entregues ao orixá de cabeça.

Então, 2023 vai ser um ano bom para as mulheres. A imagem de Oxum é a de uma africana elegante, cintilando em dourados, que, sentada à beira de um rio, amamenta o filho. Oxum está em todas as mulheres e é importante para as que cultivam a determinação e o dom da influência. Quem quer agradá-la deve lhe oferecer flores amarelas, mel e doces. Também ela gosta de milho branco, feijão preto, fava, arroz. E girassóis. Gosta de cerveja, vinhos doces, licor de caju, flores do campo e frutas, que devemos deixar para ela nas matas.

Vai ser um ano bom também para o Ceará. Nos tempos de seca, podemos lhe pedir as águas do céu e a fertilidade do chão. Oxum gosta de olhar o espelho, mas quando vê nosso mundo, ela chora, seu choro cria uma cachoeira de bondade que percorre a Terra e a limpa de tudo o que os humanos fizeram de mal.

Dizem os búzios que este ano será um horizonte de transformações, um ressurgimento das cinzas. Já sugeri à minha nora, mestre doceira, que faça quindins, pois são os doces preferidos de Oxum. Nos tempos coloniais, eram doces tão caros que só as sinhazinhas comiam. Mas, devotas do candomblé os ofertavam a Oxum. Que o ano de 2023 venha a nós com Oxum caminhando na lua cheia, nas mãos os lírios do amor e da luz; que nos torne suaves, fascinantes, e que o amor seja firme. Ora iê iê ô!

Foto do Ana Miranda

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